Por Joaquim Fonseca
A história começou no fim da tarde de ontem, com um telefonema do Pestana que me anunciava a proposta do Jerônimo de todos escrevermos cada um um texto até o meio-dia seguinte. Como para mim essa tarefa é agradável, aceitei logo.
Por causa de uns dias feriados pela frente, todos deviam estar contentes com a oportunidade do ócio e garantiam oferecer textos escritos velozmente. Notei na voz do Pestana uma certa alegria pouco comum nos existencialistas, considerei o fato estranho, mas não o quis advertir de que tal euforia não combinava com seu espírito tão amigo do tédio.
Recebida pois a incumbência, fui até a padaria da esquina e comprei, com meu único dinheiro, uma garrafa de vinho e um maço de cigarros. Estava decidido a mergulhar nas páginas em branco e transformar a bebida a fumaça e a noite em palavras com que pudesse inebriar os leitores destes cadernos.
Mal tomado o primeiro copo, mal fumado o primeiro cigarro, mal passada a primeira hora o sono já roia os confins do raciocínio. Então, de raiva, larguei de lado o caderno e o lápis e fui procurar na televisão algum daqueles canais onde costumam colocar meninas com os seios de fora.


1 Comments:
Joaquim descreve o mundo de forma realista e ao mesmo tempo imaginária!São os topázios do aparentado Ramiro, o único dinheiro gasto em vinho e cigarro (como todo boemio}. Uma mistura de um homem do mal do século que (sobre)vive num mundo de concreto.
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