segunda-feira, março 05, 2007

Por Jerônimo Boaventura

Muse, changeons de stile et quittons le lyrisme!

Admiráveis ledores, o que de júbilo venho experimentando nestes gloriosos Cadernos! Confesso-me grandemente honrado com neles participar e com haver por sócios escritores tão amigos da beleza! Por outro, o peito se me comprime e a consciência se me pesa, pelo não vos andar ofertando flores perfumadas e belas, quais as que meus colegas vos hão ofertado, e pelo não lhes andar dedicando elogios e aplausos, quais os que vós lhes haveis dedicado; naquilo falho por fraqueza de estilo, nisto por desleixo e injustiça, pois que eles muito merecem louvados no que fazem, e vós atendidos no que esperam.

Cuido que não posso desempenhar mais que a metade desta dívida. Certo, se não me falecem razões para os louvar, muito careço saber fazê-lo, pelo ser rude e inábil a minha pena, sobre me faltarem altos sentimentos que a animem.

Desta arte, ó resignados ledores, parcialmente me redimo, agradecendo enfim aos queridos Joaquim Fonseca, Antonina Casannova e Alfredo Pestana o talento que emprestam a estes Cadernos, ilustrando-me o nome que houvera de ser obscuro e ignoto se não compusesse o sublime e único Clube Jatobá.

No que respeita a vós, que me ledes por falta de cousa mais saborosa, participo que tencionei ganhar o Helicão para igualmente beber da fonte Hipocrene e, a não ser possível vos afogar em torrentes de poesia, qual já fizeram meus amigos, ao menos vos lançar alguns perdigotos líricos sobre o coração. Infelizmente revelo minhas empresas malograram, pois indo eu a esquadrinhar os flancos ao monte sagrado, interditou-me cedo uma das Musas. Vestida em branco e coroada de flores, gesticulava ela com graça e firmeza a um tempo, e as palavras lhe saíam macias e perfumosas. Era por força Polímnia que, ao avistar-me, indagou-me docemente a origem e a tenção. Como eu lhe participasse o desejo de agradar os ledores com certos versos líricos, para logo afastou-me a idéia, pretextando em gestos largos e de voz segura que minha índole, moralista e pouco sensível, não quadra a esse tipo de obra, mais afeita a espíritos flébeis e moles.

Ouvi-a discursar calado, como é de razão quando se nos apresenta um adversário de invicta oratória e argumentação cerrada. Se Erato e seus dotes amorosos me eram negados, porventura pudera privar com outra Musa, mais condizente comigo, qual seja, a retumbante Calíope. Entristeci-me entretanto ao conhecer que a Musa das palavras sonoras e grandiloqüentes anda sofrendo de tédio e tristeza, por amor de jamais os poetas lhe invocarem o canto nas últimas épocas.

Simpatizei com a sua dor, despedi-me de Polímnia ao sopé do verdejante e gracioso monte e retornei a casa meditando.

Nessa conjuntura, ótimos amigos, não alcancei o escrevinhar versos líricos que vos alimentassem a alma, mas me acendeu a luz de reviver um dia a voz retumbante e larga da epopéia primeiro que se me corte o fio da vida.

Ultimamente, como parcial reparação da minha falta, ofereço-vos este singelo vilancete do grande poeta Gaspar de Almeida, tanto mais celebrado quanto mais infeliz, que por certo já conheceis, o qual vilancete servirá de delícia e de utilidade para rematar com substância o pouco que levo dito.

Valete!

Moto

Vi passar de tristes olhos,
A padecer e a chorar,
Minh’alma sob o luar.

Voltas

Era sobre tarde, amigo,
Quando se me deparou
O fatal vulto inimigo
Da dona a quem sempre amou
E nos versos exaltou,
Continuamente a cantar,
Minh’alma sob o luar.

De amenas notas repleta,
Modulou-se a melodia,
Por dourar a alma dileta
Da dona a quem sempre via,
Pela noute fugidia
Lentamente passear,
Minh’alma sob o luar.

Mas nisso eu lograva nada,
A bem de maior tormento.
Pois a dona, minh’amada,
Desdenhava-me o intento.
Lamento sobre lamento,
Eterna foi-se a vagar
Minh’alma sob o luar.

Luís Gaspar de Almeida

21 Comments:

At 15:57, Anonymous Anônimo said...

A retórica de Jerônimo Boaventura muito me agrada. Gostaria de ser aquela musa com quem ele se encontrou!

 
At 18:57, Anonymous Anônimo said...

Nãão!!.. eu é que gostaria de ser aquela musa do Jejê.

 
At 13:35, Blogger Tati Salla said...

Fui apresentada a este blog, por um amigo,irmao de um de vcs (Felipe Rameh) e desde então q venho tds os dias em busca de novas palavras.
li tds, desde o 1 post de vcs, e me encantei.
So gostaria de saber, quem é cada autor...me apaixonei pelas palavras...
Parabéns.

 
At 15:51, Blogger Clube Jatobá said...

Cara Laurinha, muito me admira tenhas topado nestes Cadernos com palavras novas, pois tudo o que vai neles já foi dito e redito. Nada obstante, teus elogios nos lisonjeiam deveras, posto que imerecidos.
Tocante à tua pergunta sobre quem é cada autor, respondo por mim que sou Jerônimo Boaventura e mais ninguém. Cuido que meus sócios igualmente não tenham dupla personalidade.
Como quer que seja, recebe os meus sinceros agradecimentos.
Vale!
J. Boaventura.

 
At 20:57, Anonymous Anônimo said...

Esse Jerônimo é um fazedor de média!

 
At 21:33, Blogger Clube Jatobá said...

Cara Laurinha, para minha grande infelicidade nunca consegui deixar de ser Alfredo – escritor medíocre, desiludido e entediado.
Mas o que de fato me parece preocupante, por hora, é o tal amigo da leitora, que se diz irmão de um dos integrantes do amado Clube Jatobá. Se não me engano a respeito das relações familiares de meus companheiros, teu amigo não passa de um autêntico charlatão, e, a fim de ilustrar a própria imagem, tenta valer-se da glória imerecida destes cadernos artificiais. Afirmo não conhecer nenhum Felipe, e, se certa vez conheci um tal Rameh, não foi, definitivamente, para meu deleite.
Sugiro à leitora que desconfie do rapaz, pois ele dá provas de não ser muito transparente – além de carregar o sobrenome suspeito.
Agradeço-te por fim a simpatia e espero que continues a ler estas páginas, se tanto te entusiasmam.
Cordialmente,
A. Pestana

 
At 21:37, Anonymous Anônimo said...

Qual foi minha alegria ao ver aqui publicado um poema do notável Gaspar de Almeida!! Agradeço ao admirável Clube Jatobá - de poetas guerreiros, que defendem com unhas, dentes e belas palavras a alta literatura universal! Avante, Clube Jatobá! Avante!

 
At 21:48, Anonymous Anônimo said...

Bem-aventurados os frequentadores destes cadernos, visto escrever nele o virtuoso Boaventura! O estilo do senhor, seu Jerônimo, é daqueles que confortam os sentidos, independente do que venha dito. A Língua Portuguesa há de agradecer-lhe a nobreza, como também eu agradeço-lha. Obrigado, ó gênio!

 
At 09:37, Blogger Clube Jatobá said...

Querida Laurinha, eu Joaquim não tenho nenhum parente de nome Rameh. Houve sim um aparentado meu com a graça de Felipe Ramiro, mas esse se enroscou pro lado do Jequitinhonha numa turma de garimpeiros atrás de uns topázios e ninguém mais deu notícia. Não será esse seu amigo o tal Ramiro?

De toda forma, Laurinha, agradeço muito sua bondade e dedicação
Abraços,
J. Fonseca

 
At 14:43, Anonymous Anônimo said...

Jerônimo de Cervantes!

 
At 15:13, Anonymous Anônimo said...

Voltou o carnaval a estes miseráveis Cadernos! Só sabem jogar confete um no outro!

 
At 15:50, Anonymous Anônimo said...

Po gervasio, para né velho, desse jeito vc vai ficar antipatizado. Meu amigo, a galera não vai gostar de vc assim.

 
At 21:36, Blogger Tati Salla said...

Tamanha foi a minha surpresa, qdo vi não so a atençao dedicada a uma assidua leitora, como a delicadeza e empenho em me notar!
Quem agradece sou eu, pelo acrescimo em minha vida!
Vendo as respostas de vcs, pude ver como fui ingenua em minha percepção de identidades.
Não sou boa como vcs, mas os tenho não só como fonte de inspiração, como admiração.
Beijos

 
At 22:22, Anonymous Anônimo said...

Se você não quer se entendido, Boaventura, por que não cala logo a boca?

 
At 21:41, Anonymous Anônimo said...

Prefiro ler catálogo do que esse cara. Quanto esnobismo! todo mundo sabe que a literatura é mais do que isso, inclusive os autores que fazem e fizeram sucesso nos últimos tempos escreviam bem diferente, próximo do linguajar do povo. Enfim, falta noção literária pra esses caras como esse Jerônimo Boaventura!

 
At 13:22, Anonymous Anônimo said...

Sempre desconfiei que os estudantes de letras eram estúpidos.

 
At 19:21, Anonymous Anônimo said...

Tampouco a mim agradam esses cavalos! Odeio estudantes de Letras!

 
At 20:28, Blogger Clube Jatobá said...

Que ilustre visita a de um estudante de Letras! Devido a seu refinado comentário a respeito dos escritores de sucesso, tomei o trabalho de traduzir um fragmento do prólogo de um livro de poemas, Luna de Enfrente, do maestro argentino J.L. Borges, onde ele argumenta a respeito dos escritores e seu tempo. Assim trato de brindar nosso digníssimo estudante com palavras tão à sua altura.

“Por volta de 1905, Hermann Bahr decidiu: O único dever, ser moderno. Vintetantos anos depois, eu me impus também essa obrigação de todo supérflua. Ser moderno é ser contemporâneo, ser atual: todos fatalmente somos. Ninguém – fora certo aventureiro que Wells sonhou – descubriu a arte de viver no futuro ou no passado. Não há obra que não seja de seu tempo: o escrupuloso romance histórico Salammbô, cujos protagonistas são mercenários das guerras púnicas, é um típico romance francês do século XIX. Nada sabemos da literatura de Cartago, que verossimilmente foi rica, salvo que não podia incluir um livro de Flaubert.”

Meus emocionados saúdos a nosso elevado visitante,
J. Fonseca.

 
At 18:59, Anonymous Anônimo said...

Caro Jerônimo, seus poucos, porém fascinantes e oportunos textos ("O idiota" é obra-prima!!!) me fizeram pensar em algumas coisas... O artista deve ter, além do estritamente necessário pra sobreviver, apenas as ferramentas de seu ofício, de preferência compradas a prestação, com sacrifício de sua vida pessoal ou familiar, sexual e psíquica. A sociedade, por sua vez, tem o dever de contribuir pra tornar a vida do artista tão miserável e desprezível que não seja atraente pra nenhum desses milhões de "idiotas" que nos enchem as vistas com brochações tediosas, nos enchem os ouvidos com barulhos estentóricos e estertorosos, o saco com sua permanente auto promoção... Galeria de arte, cinemas de arte e livrarias devem ser colocados fora-da-lei, perseguidos e punidos com mais rigor do que hoje são perseguidos os usuários e traficantes de drogas. Assim, execrado e subnutrido, condenado à saúde precária e lamentável aparência física, só será artista o que for condenado a isso por um destino biológico avassalador, uma vocação metafísica verdadeiramente doentia. Ministério da Cultura é o escambau! Ou Van Gogh ou nada!

 
At 19:13, Anonymous Anônimo said...

Ah, e já ia me esquecendo de comentar aquele seu, caro Jerônimo, pertinente comentário, tempos atrás, acerca dos irmãos Campos ("o 'Só pra Contrariar' da forma"...) Já pensou nisto aqui, cara... se você pega uma idéia concreta e consegue expressá-la em cores, formas e materiais concretos, você faz arte abstrata. Agora, se você pega uma idéia abstrata e consegue revesti-la de outras idéias abstratas, forrando-as e adornando-as com materiais também abstratos, aí você faz arte concreta. Moral: a única coragem artística, nos dias de hoje, é pintar "nêgo véio cum tacho de cobre". ARTE É INTRIGA.

 
At 19:40, Blogger Clube Jatobá said...

Amigo leitor Vidigal, teu texto parece-me esforçado e apreciável, posto que algum tanto truncado. Não acertei com a teoria do artista nele discorrida, que faz do efeito a causa, estipulando como condição para ser artista o ser mendigo, ao passo que daquilo muita vez é que se desagua nisto.
Merecem ser emendadas as tuas palavras no que respeita à autoria daquele comentário sobre os irmãos Campos. Em verdade não é meu, ainda que lamente o não ter feito. Seu autor é um tal Jonas, que anda comentando e analisando outros textos destes Cadernos, o qual já convido para neles participar como meu escritor-suplente, caso o queira, pelo brilhantismo de suas palavras e pela perspicácia dos seus pensamentos. E, se for do alvitre dos mais escritores deste Clube, sugiro ocupe ele o ofício de titular, uma vez que há muito ando comportando-me como reserva. Agradeço-te os imerecidos elogios e para logo os distribuo entre os integrantes do Clube.
Vale!
J. Boaventura.

 

Postar um comentário

<< Home