sábado, fevereiro 17, 2007

Por Antonina Casannova

Porque eu contribuí apenas uma vez com os "cadernos"e me ausentei por considerável período, sinto a necessidadede de dizer que em momento algum me esqueci do motivo deste espaço - motivo muito claro nas palavras de Joaquim Fonseca- ao qual, orgulhosamente, pertenço. No entanto, há momentos em que a poesia se recolhe como uma maré que baixa e tarda a voltar, e então o poeta se questiona sobre sua própria funcionalidade, seu cargo, seu papel, e seus papéis esperam, pacientemente, pelos versos, que custam a vir. Daí nascem os intervalos vazios, as páginas em branco, e , paradoxalmente, os momentos de alegria do poeta. Porque o poeta se sente sozinho é quando escreve, escrever é sua visceral angústia. Mas tenho escrito sim, sobretudo versos infantis, já que vislumbro futuramente lançar um livro voltado ao público infantil.
Sem mais delongas, eis que hoje quero vos deliciar, adoráveis leitores, com os versos de um grande poeta e de um grande amigo: João Olavo Filho. João é belorizontino, meu conterrâneo, boêmio, e um homem que escreve como quem regala um bálsamo. Seu fazer poético, como tudo que ele faz, talvez seja sobrecarregado de uma paixão tão pura e pulsante que delicadamente o impeça de "não" ser um tanto autobiográfico. Ainda assim, vos adverto numa escusada assonância e aliteração: um escritor reflete-se quase sempre em si mesmo, mas não vos esqueçais que a literatura - a arte - é um jogo de máscaras.


"Poema para um adeus feliz

Quando eu morrer
não quero que me cubram de flores:
quero que me cubram da terra plena
de poesia, sob a qual sufoquei minhas dores.

Quando eu morrer
também não quero velas, tampouco presença de vigário;
mas se velas houver,
que seja a velinha bruxuleante e tímida
que enfeitou a torta do meu primeiro aniversário.

Quando eu morrer
por favor, amigos, não chorem nem digam:
"abençoado seja!"
Prefiro que cantem um samba
"sem volta nem ida..."
e que bebam muita cerveja
celebrando os contratempos da vida

Quando eu morrer
levarei comigo um jeito de saudade das madrugadas,
um burburinho de chuva caindo
e um olhar malicioso de namoradas.
Levarei a lembrança da minha cidade
à sombra dos seus viadutos e tantos mil edifícios;
e seguirei cantando, envolvido em silêncio,
alguma canção de Tom e Vinícius.

Quando eu morrer
que me afeiçoem um eterno sorriso
e me enterrem vestido só de meus cabelos.
Mas para não haver espanto,
que me cubram os pêlos
com um poema inacabado que eu fiz sobre o amor,
escrito a mão;
E mesmo não havendo espaço,
amigos meus, por favor,
deitem em meu peito um bom e velho violão."

12 Comments:

At 08:35, Anonymous Anônimo said...

Ah!, com que alegria recebo a publicação de Antonina Casannova! Há muito me desiludira com a arrogância e as ironias ferinas de J.Boaventura, o tédio estúpido de A. Pestana, e a anarquia intelectual de Joaquim Fonseca, mas, repentinamente, tenho a felicidade de encontrar novas palavras de Antonina, ainda que sob máscara de maior leveza, mas com a mesma beleza e simplicidade. É, deste tal Jatobá, a única que acolhe o leitor em suas palavras, não o julgando um qualquer idiota. Agradeço-lhe, querida, a possibilidade de lê-la e a cumplicidade e simpatia com que se dirige a nós.

 
At 08:39, Anonymous Anônimo said...

Nossa, eu também amo Vinícius de Moraes!!!

 
At 15:38, Anonymous Anônimo said...

Quando jovem, eu sonhava em ser escritor. Hoje que envelheci e vejo que meu sonho se perdeu no tempo, tenho a alegria de encontrar, na minha cidade Belo Horizonte, escritores talentosos como vocês, que preenchem o meu espaço que nunca existiu com bons textos e muita esperança na literatura. Obrigado, Clube Jatobá!

 
At 16:50, Anonymous Anônimo said...

Anseio então por mais momentos angustiantes vindos de Antonina e seu companheiro João Olavo.
Ironicamente são as palavras que mais me alegram, fogem dessa trivial melancolia articulada.
Proponho menos retórica e mais lirismo nesses cadernos.

 
At 22:39, Anonymous Anônimo said...

Prefiro os textos graciosos da Antonina. Sou contra o Clube Jatobá se tornar o Clube do Bolinha!

 
At 22:46, Anonymous Anônimo said...

Olha só! Fui amiga do João Olavo, e é bom saber que o Filho parece ter o mesmo talento do pai. Parabéns, Olavinho!

 
At 12:04, Anonymous Anônimo said...

Se em verso essa Antonina era ruim, em prosa é uma ofensa!

 
At 13:01, Anonymous Anônimo said...

O carnaval do Clube Jatobá está bombando mesmo!!

 
At 13:05, Anonymous Anônimo said...

Onde se escondeu Joaquim Fonseca que anda em sem fim viagens pelo nosso Brasil? De certo poderia publicar seus diários de viagem e agraciar-nos com suas doidices andarilhas. Me consta que o doidivana, de posse de sua mochila e algumas peças velhas de roupa, vai que há 40 dias não pisa em sólo belorizontino.

 
At 23:16, Anonymous Anônimo said...

esse Olavinho é um gozador!

 
At 23:20, Anonymous Anônimo said...

Q história é essa de cobrir as partes intimas com um poema, po!!! sacanagem né?

 
At 11:28, Anonymous Anônimo said...

Eh marilia burra, larga de ser vulgar minha filha!

 

Postar um comentário

<< Home