Trecho: O Sábio Celibatário.
Por Joquim Fonseca
"Es sabido que la identidad parsonal reside en la memoria y que la anulación de esa facultad comporta la idiotez"
Borges, Historia de la eternidad
De fato não importa nada, senão o esquecimento, a perda definitiva de todas tuas lembranças. Esquece a casa de tua infância e o teu bairro, o nome de teus vizinhos mais amáveis e também suas caras. Principalmente esquece a ternura – se é que a tinham – de teus parentes. Esquece tua escola, sobretudo esquece todas as lições que te deram a tua primeira professorinha e todas outras professorinhas. Esquece teus erros, pecados, blasfêmias, irresponsabilidades, invejas, e também teus atos louváveis. Esquece teus amigos melhores, com os que por acaso alguma vez sentiste a felicidade infinita dos instantes compartilhados. Esquece, esquece a menina a quem beijaste sob a lua crescente, a primeira vez que lhe tocaste o seio, esquece também as outras mulheres. Esquece o sabor do leite, do pão, da uva, do sal, todos os sabores que alguma vez provaste. Esquece os livros que te reinventaram o mundo, os poemas em que sonhaste, os sonhos que não esqueces, esquece-os. Esquece a música, os poentes e as auroras, as árvores do parque onde costumavas passar as tardes. Esquece as cidades que não são tuas, mas que vivem na tua memória. Teu idioma, tua pátria, esquece.


12 Comments:
Qual foi a melhor: aquela noite inesquecível ou aquela noite que você nem se lembra do que aconteceu? Em nome da contradição, fico com a noite inesquecível de cujos acontecimentos não me lembro. Em nome de Joaquim.
Meio recalcado esse Joaquim!
Deparei-me com estes Cadernos há poucos dias, quedando-me deveras impressionado com o alto rigor artístico e lingüístico dos que aqui escrevem. Ocorreu-me perguntar, apenas, se por acaso foi o ilustre Jerônimo Boaventura quem escreveu o Hino Nacional Brasileiro, aquela obra-prima da poesia em língua portuguesa - dourada, brilhante, magnânima, como essa nação adorada, a que, entretanto, a maioria imoral e corrupta de brasileiros não dá o devido valor.
O tal Joaquim Menteles esqueceu-se de comentar que somos também extremamente políticos, imodestos e mentirosos!
Depois deste texto do Joaquim sobre o esquecimento, todos esqueceram os Cadernos, tanto os seus escritores quanto os seus leitores.
Esse Clube Jatobá devia abandonar logo as letras, que para isso ninguém aqui tem talento. Sugiro a vocês que montem um time de futebol ou algo assim, e esqueçam mesmo essa história de juntar palavras...
Caro amigo Joaquim, este seu texto parece retratar o momento atual da minha vida. Eis que me volto em busca de um sonho, viajo a um mundo para mim desconhecido. E neste novo mundo, amigos, família, a menina que beijei sobre a lua cheia, o coração calmo e os momentos de grande alegria ficaram para trás. Hoje o que mais desejo é voltar, porém não sei quando esta hora chegará.
Uma vez Nietzsche disse que a felicidade é o lugar da desmemória, não seria então o esquecimento uma forma de continuar a viver, de fingir que todo o passado foi honesto e todo o futuro poderá ser tranquilo. O pedido cru para o esquecimento parece triste logo que já o fazemos inconscientemente.
Essa lua crescente me faz suspirar
Grande Joaquim fonseca disse: "A solidão é difícil e os covardes a evitam porque são cretinos."
E eu assino embaixo.
Eu ainda prefiro quando o Joaquim escrevia histórias de amor. Nossa o amor é um sentimento tão sublime! Que fim levou sua história com a Celi, Joaquim??
pensando na alma que pensa e ao pensar já não é alma.
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