CREDO LINGÜÍSTICO
Por Jerônimo Boaventura
A Rui Barbosa.
“É comum ver coberto de remoques o escritor, que, no seu exagerado amor da língua que pratica, não quer vê-la alfaiada de ornatos impróprios, nem rebaixada de sua antiga e sóbria dignidade. Dizer – um gramático – é dizer – um emperrado, um retrógrado, um caturra. Mas, não raro, esse desprezo do apuro gramatical esconde uma ignorância que se não quer confessar.”
Olavo Bilac
Se vos exponho o meu credo lingüístico, leitores e leitoras, a razão está na penúria e no desconcerto que passa hodiernamente o nosso mais caro veículo de idéias e sentimentos.
Creio na portuguesa língua, riqueza maior que nos legou o gênio lusitano; creio na lição dos clássicos, fonte donde jorra a um tempo as belezas do idioma e a nobreza dos pensamentos; creio ser a Gramática a Constituição da Língua, homologada e outorgada no lastro dos bons escritores e no uso que dela fizeram as pessoas de estudo; creio que a imaginação popular, inventiva e viva, é parte legítima da língua, quando a não viola por amor da ignorância; creio que as escolas de presente não apenas nada ensinam, mas ainda concorrem para o descuro do idioma e para a vulgarização dos espíritos; creio que o saber, hoje como nunca, é produto do esforço individual.
Odeio a juventude analfabeta e atrevida; aborreço as academias e os governos de resoluções e atos normativos, que enodoam a língua em atenção ao lucro editorial e ao gosto de novidade do povo; vitupero os falantes da língua bunda e estropiada; maldigo a desídia e a mediocridade dos que aplanam os espíritos ao nível da terra, porque já os não fazem subir aos céus da sabedoria; anojo-me dos que buscam no lodo a falsa pérola dos fatos lingüísticos e dos que semeiam a demagogia em nome da ciência: in uestimentis ouium lupi rapaci, são lobos rapazes vestidos de ovelhas, cujo uivar longo e terrível nos entra os ouvidos à guisa de canção fatal, prenunciando soturnamente a morte do conhecimento.
Valete!


6 Comments:
Devemos ser gratos aos portugueses. Se não fossem eles, estaríamos até hoje falando tupi-guarani, uma língua que não entendemos...
Um terror me sacode; estou perdido na terrível floresta da linguagem. Ignorando a estrada sintática, vou tropeçando em anglicismos, latinismos, barbarismos e idiotismos de linguagem, quando ouço o silvar de vocábulos paragógicos. Caio no areal dos solecismos e sou mordido por vários anacolutos. A custo, afastando duas redundâncias e esmagando um horrendo pleonasmo, escorregando em sinistras hipérboles, agarro-me a um verbo auxiliar e a um complemento não-essencial. Porém hibridismos me barram o caminho. Ensurdecido por rotacismos e lambdacismos, arranhado por orações anfibológicas, recuo para não cair no terrível cipoal da regência, de onde raros escapam com vida. Galhos de corruptela me cortam o rosto enquanto sufoco com o cheiro de defectivos. Ponho o pé num nome próprio, mas logo seis substantivos deverbais saltam sobre mim. Não tendo fuga, me protejo com uma próclise, evitando duas espantosas mesóclises, e aproveito um advérbio de negação para atrair três pronomes relativos colocados em posições ameaçadoras. Felizmente surge a clareira de um parágrafo. Avanço, abrando parêntesis, onde enfio arcaísmos, anacronismos, expressões chulas e ambivalentes. Uma silepse espera-me mais à frente. Desvio-me com uma vírgula, engano uma prosopopéia, sou envolvido por diversos parequemas, a que logo se juntam odiosas ressonâncias verbais. Descanso sobre reticências, quando ouço o tantã de interjeições pejorativas emitidas por sujeitos ocultos por elipse. Apócopes! Escapo pela picada do eufemismo e paro para respirar no fim de um período simples. Avanço pela pedreira dos metaplasmos, luto com apofonias, salto o pantanal dos cacófatos, esbarro em cacografias, empurro cacologias, me arrasto pela cacoépia. Morto de exaustão, cercado por centenas de substantivos promíscuos, já desespero, quando percebo que cheguei a um lugar-comum. Viva a portuguesa língua! Viva a portuguesa língua?
Mas hein?? Alguém aí pode traduzir o tupi-guarani do amigo aí em cima!! Me perdi na estrada sintática delineada por ele. Socorro, socorro!!!
esse paulo nunes só pode ser aquele do Grêmio, com essa inteligencia de jogador de futebol...
Talvez seja por isso que os integrantes destes Cadernos tenham se enveredado pelos gramados brasileiros, com essa inteligência de jogador de futebol...
Sr. Nunes, lamento que haveis passado tantos perigos na silva da portuguesa língua. Ao revés de lhe querer desbravar a vida com incursões desprevenidas, a custo da vossa, poderíeis ficar algum tanto apartado dela, admirando-lhe ao longe a extensão e a riqueza. Que eu também, por observar e gozar as belezas da natura, julgo desagradável padecer picadas de moscardos e roçares de cipós, pelo que me resguardo, aguçando a vista bem à distância nos lugares naturais e, para certo pormenor de botânica ou de zoologia, visitando um que outro museu dessas matérias. Posto isso, agradeço-vos! agradeço-vos?
Vale!
J.B.
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