quarta-feira, maio 16, 2007

CREDO LINGÜÍSTICO

Por Jerônimo Boaventura

A Rui Barbosa.

“É comum ver coberto de remoques o escritor, que, no seu exagerado amor da língua que pratica, não quer vê-la alfaiada de ornatos impróprios, nem rebaixada de sua antiga e sóbria dignidade. Dizer – um gramático – é dizer – um emperrado, um retrógrado, um caturra. Mas, não raro, esse desprezo do apuro gramatical esconde uma ignorância que se não quer confessar.”
Olavo Bilac

Se vos exponho o meu credo lingüístico, leitores e leitoras, a razão está na penúria e no desconcerto que passa hodiernamente o nosso mais caro veículo de idéias e sentimentos.

Creio na portuguesa língua, riqueza maior que nos legou o gênio lusitano; creio na lição dos clássicos, fonte donde jorra a um tempo as belezas do idioma e a nobreza dos pensamentos; creio ser a Gramática a Constituição da Língua, homologada e outorgada no lastro dos bons escritores e no uso que dela fizeram as pessoas de estudo; creio que a imaginação popular, inventiva e viva, é parte legítima da língua, quando a não viola por amor da ignorância; creio que as escolas de presente não apenas nada ensinam, mas ainda concorrem para o descuro do idioma e para a vulgarização dos espíritos; creio que o saber, hoje como nunca, é produto do esforço individual.

Odeio a juventude analfabeta e atrevida; aborreço as academias e os governos de resoluções e atos normativos, que enodoam a língua em atenção ao lucro editorial e ao gosto de novidade do povo; vitupero os falantes da língua bunda e estropiada; maldigo a desídia e a mediocridade dos que aplanam os espíritos ao nível da terra, porque já os não fazem subir aos céus da sabedoria; anojo-me dos que buscam no lodo a falsa pérola dos fatos lingüísticos e dos que semeiam a demagogia em nome da ciência: in uestimentis ouium lupi rapaci, são lobos rapazes vestidos de ovelhas, cujo uivar longo e terrível nos entra os ouvidos à guisa de canção fatal, prenunciando soturnamente a morte do conhecimento.

Valete!

6 Comments:

At 17:08, Anonymous Anônimo said...

Devemos ser gratos aos portugueses. Se não fossem eles, estaríamos até hoje falando tupi-guarani, uma língua que não entendemos...

 
At 17:38, Anonymous Anônimo said...

Um terror me sacode; estou perdido na terrível floresta da linguagem. Ignorando a estrada sintática, vou tropeçando em anglicismos, latinismos, barbarismos e idiotismos de linguagem, quando ouço o silvar de vocábulos paragógicos. Caio no areal dos solecismos e sou mordido por vários anacolutos. A custo, afastando duas redundâncias e esmagando um horrendo pleonasmo, escorregando em sinistras hipérboles, agarro-me a um verbo auxiliar e a um complemento não-essencial. Porém hibridismos me barram o caminho. Ensurdecido por rotacismos e lambdacismos, arranhado por orações anfibológicas, recuo para não cair no terrível cipoal da regência, de onde raros escapam com vida. Galhos de corruptela me cortam o rosto enquanto sufoco com o cheiro de defectivos. Ponho o pé num nome próprio, mas logo seis substantivos deverbais saltam sobre mim. Não tendo fuga, me protejo com uma próclise, evitando duas espantosas mesóclises, e aproveito um advérbio de negação para atrair três pronomes relativos colocados em posições ameaçadoras. Felizmente surge a clareira de um parágrafo. Avanço, abrando parêntesis, onde enfio arcaísmos, anacronismos, expressões chulas e ambivalentes. Uma silepse espera-me mais à frente. Desvio-me com uma vírgula, engano uma prosopopéia, sou envolvido por diversos parequemas, a que logo se juntam odiosas ressonâncias verbais. Descanso sobre reticências, quando ouço o tantã de interjeições pejorativas emitidas por sujeitos ocultos por elipse. Apócopes! Escapo pela picada do eufemismo e paro para respirar no fim de um período simples. Avanço pela pedreira dos metaplasmos, luto com apofonias, salto o pantanal dos cacófatos, esbarro em cacografias, empurro cacologias, me arrasto pela cacoépia. Morto de exaustão, cercado por centenas de substantivos promíscuos, já desespero, quando percebo que cheguei a um lugar-comum. Viva a portuguesa língua! Viva a portuguesa língua?

 
At 20:32, Anonymous Anônimo said...

Mas hein?? Alguém aí pode traduzir o tupi-guarani do amigo aí em cima!! Me perdi na estrada sintática delineada por ele. Socorro, socorro!!!

 
At 22:19, Anonymous Anônimo said...

esse paulo nunes só pode ser aquele do Grêmio, com essa inteligencia de jogador de futebol...

 
At 12:27, Anonymous Anônimo said...

Talvez seja por isso que os integrantes destes Cadernos tenham se enveredado pelos gramados brasileiros, com essa inteligência de jogador de futebol...

 
At 20:33, Blogger Clube Jatobá said...

Sr. Nunes, lamento que haveis passado tantos perigos na silva da portuguesa língua. Ao revés de lhe querer desbravar a vida com incursões desprevenidas, a custo da vossa, poderíeis ficar algum tanto apartado dela, admirando-lhe ao longe a extensão e a riqueza. Que eu também, por observar e gozar as belezas da natura, julgo desagradável padecer picadas de moscardos e roçares de cipós, pelo que me resguardo, aguçando a vista bem à distância nos lugares naturais e, para certo pormenor de botânica ou de zoologia, visitando um que outro museu dessas matérias. Posto isso, agradeço-vos! agradeço-vos?
Vale!
J.B.

 

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