Por Jerônimo Boaventura.
Da aldeã Lúcia.
Três dias esteve esta humilíssima e dolorosa aldeã a pedir em oração por seu filho, que curtia moléstia a mais grave. Ao cabo de cinco dias, morto o filho e serenada a mãe, escarneceu dela um homem, sabedor de boatos e ignorante da doutrina, censurando a vanidade da sua fé. Minhas orações, retorquiu ela, visavam menos a salvar-me o filho, que já nas mãos de Deus estava, que a salvar-me a mim.
Reflexão
Das gentes miúdas de pecúlio vê-se que se podem extrair exemplos sublimes, revelando-se nisso graúdas de alma.
Com efeito, leciona a aldeã que orações servem não só para petição de graças, mas ainda para construção de virtudes; pois, estando o filho pequeno a desatar a alma por vontade divina – que crianças não passam senão por vontade de Deus – e conhecendo a bem-aventurança já reservada a ele, encomendou-se ela ao Senhor, orando piedosamente para si, e não para o filho já encomendado, com o intuito de granjear forças que não havia, único remédio para vencer a agrura desse infortúnio.
O desenlace fatal não lhe prejudica a fé nem a macula de vanidade, porquanto a prova era salvar-se a si, e não salvar ao filho, pois este já se salvara cumprindo a vontade do Senhor; já aquela mulher salvou-se com acolher essa vontade sem desesperar e descrer, que nisto se perdera.
Tal revela confiança nas palavras de edificação e vontade rígida, amigos leitores, que não dobra ao peso da desventura.
Valete!
Da aldeã Lúcia.
Três dias esteve esta humilíssima e dolorosa aldeã a pedir em oração por seu filho, que curtia moléstia a mais grave. Ao cabo de cinco dias, morto o filho e serenada a mãe, escarneceu dela um homem, sabedor de boatos e ignorante da doutrina, censurando a vanidade da sua fé. Minhas orações, retorquiu ela, visavam menos a salvar-me o filho, que já nas mãos de Deus estava, que a salvar-me a mim.
Reflexão
Das gentes miúdas de pecúlio vê-se que se podem extrair exemplos sublimes, revelando-se nisso graúdas de alma.
Com efeito, leciona a aldeã que orações servem não só para petição de graças, mas ainda para construção de virtudes; pois, estando o filho pequeno a desatar a alma por vontade divina – que crianças não passam senão por vontade de Deus – e conhecendo a bem-aventurança já reservada a ele, encomendou-se ela ao Senhor, orando piedosamente para si, e não para o filho já encomendado, com o intuito de granjear forças que não havia, único remédio para vencer a agrura desse infortúnio.
O desenlace fatal não lhe prejudica a fé nem a macula de vanidade, porquanto a prova era salvar-se a si, e não salvar ao filho, pois este já se salvara cumprindo a vontade do Senhor; já aquela mulher salvou-se com acolher essa vontade sem desesperar e descrer, que nisto se perdera.
Tal revela confiança nas palavras de edificação e vontade rígida, amigos leitores, que não dobra ao peso da desventura.
Valete!


8 Comments:
Esse Jerônimo Boaventura é um padre enrustido. Isto é um clube literário ou um seminário?
Muito bem, Sabino! Esse padre devia procurar outro espaço onde pregar!
É mais facil ser convicto no existencialismo e criticar o que desconhece, JB mostra coragem em expor a fé alheia que eleva os pequenos e evidencia a fraqueza dos grandes.
Qual não foi meu espanto ao ver que ainda é possível encontrar escritores de talento! Parabéns, Jerônimo Boaventura, sua prosa quase não deixa a desejar ao velho Cervantes, mestre maior da arte de juntar palavras. Aproveito também para saudar os seus companheiros na aventura literária - o blog merece ser lido e estudado. Cordialmente,
José Carlos - professor aposentado
Os que me notam de padre relevo, se soubessem o que dizem; mas nada sabem Sabino e Leopoldo.
No que respeita à Sra. Granucci, conquanto seus velhos confetes eu os queira e estime, dela espero as sementes edificantes.
Saúdo e agradeço ao professor aposentado José Carlos e, fosse eu padre deveras, lhe perdoaria o pecado da comparação estilística.
Valete!
J. Boaventura.
Ilmo JB,
Assusta-me deparar com um texto de tamanha prolixidade. Acostumado a ler este caderno tão famoso, envergonho-me por você, um escritor de invejável habilidade.
Desculpe-me a indelicadeza.
Valete!
Venho lendo os textos deste blog há algum tempo, mas nunca tive vontade de comentar. Decidi fazê-lo. Conheço-os a todos, os três rapazes e a donzela, e sabem vocês quem sou. Sei que os move o amor às letras e, sobretudo, o amor à glória, ainda que não o confessem. Não é motivo para vergonha senti-lo. Ele moveu todos os grandes homens da história.
O que me preocupa é a falta de coragem em assumirem-se como escritores e, principalmente, o desleixo no estudo e desprezo ao conhecimento que vêm mostrando nos últimos tempos. Não adianta essas caras de espanto e esses olhos arregalados! Já estive entre vocês, são todos reais! Amigos leitores, estes escritores são reais, tanto quanto os textos que escrevem! Mas são eles os primeiros a duvidarem da própria existência... Entregam-se de mão beijada às convenções da vida, querem diplomas, cátedras, cargos, tudo... só não querem as letras, a poesia, o estudo sério, a produção! Já chega... a um bom entendedor, meia palavra basta. Adeus e até mais, amigos.
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