quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Carta imaginária para Celi

Por Joaquim Fonseca

Ah Celi, coração de pedra! Escolheu a solidão, tanta ternura, e escolheu amar ninguém. Disse que queria morrer numa piscina de café e que queria um caixão de chocolate. Foi assim que deixou escapar alguns grãos de amor, desajeitada, me machucou igual as outras mulheres fazem. Eu também não saberia te amar, mais desajeitado sou eu, sofri demais por causa de um ou outro abraço, um par de sorrisos e por nossos braços encostados no meio daquele filme ruim que eu tentava não ver enquanto você dormia. Você não entende, Celi, mas na verdade é tudo simples: eu queria só a sua mão, o seu nariz, as suas orelhas, o seu cabelo, a sua boca, as suas pernas, a sua barriga, o seu cheiro, Celi, e tudo mais que precisava para sermos felizes por algum tempo. Você não acredita, mas eu também ia te dar minha ternura. Agora esse afeto vai apodrecer dentro de mim, eu juro que vai apodrecer muito, e a culpa é sua, Celi, a culpa é só sua.

Ps: De repente te odiei sem querer e você capaz que me odiou muito mais.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Papai do céu

Por Antonina Casannova

[Como deixei dito naquele texto em que vos apresentei a poesia de meu amigo, João Olavo Filho, estou escrevendo versos infantis, ou, melhor dizendo, versinhos. Eis um poema. Espero que vos apeteça]


Papai do céu, amiguinho,
Me escute, papai do céu.
Prometo ser mais bonzinho,
Talvez até bacharel.

Papai do céu, me ajude
Que eu lhe dou, papai do céu,
As minhas bolas de gude
E o meu barco de papel.

Se o senhor for me ajudar
Eu prometo, papaizinho,
Que nunca mais vou puxar
A barba do bom velhinho.

É que eu quebrei um vasinho
Bonito, cheio de flor.
Se mamãe souber, tadinho
De mim, já sinto até dor.

A bola bateu no vaso
E o vaso dançou no ar...
Papai do céu, que arraso!
Não gosto nem de lembrar.

Tenho tanto de levado
Quanto mamãe tem de brava,
E está todo espatifado
O vaso que ela gostava.

Mamãe vai me dar castigo
Só que a culpa foi da bola.
Papai do céu, seja amigo:
É porcelana espanhola.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

NOITE

Por Antonina Casannova

[Depois de minha tempestade particular, um pouco de minha angustiante calmaria]


Ouço me dizerem
De dentro da noite:
- Grita!
Não sei se é o eco dos meus desencontros
Ou se o meu resto de mundo
Que em vão se agita.

E há outro eco
Que grita, insistente:
- Termina contigo mesma, Antonina!
Mas logo a noite abre seus portais
E se veste misteriosamente de um véu
Que eu não sei se é o frio
Ou se um rio caiu do céu,
E não há quem transponha
Sua transparente cortina.

E no chão que me resta
Eu desabo perdida;
Não há quem me prive do chão,
Esta definitiva morada
Da vida.

domingo, fevereiro 25, 2007

Outra prosa pra Celi

Por Joaquim Fonseca

Por alguma razão para mim ainda não revelada, imaginava conhecê-la já muito mais do que a alguém é dado conhecer um outro. Puro engano! Nos encontrávamos de quando em quando, e, num então, a lua crescente e a Celi estavam igualmente irresistíveis e dividiam o céu. Aos poucos, enquanto naufragava nos seus olhos de noite, a certeza de que a desvendava me parecia trair. Eu lhe havia colocado muitas e misteriosas máscaras e naquele momento precisava vê-la isenta. Ela se recusava. Minha angustia ali era que muito provavelmente não deveríamos olhar-nos.

A Celi continuava brincando com a amiga.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Partires

Por Alfredo Pestana

Escuto teus pés sobre o vento
e, de um sopro,
alcanço-te em canto:
bailas
sublime
no céu de meus versos.

domingo, fevereiro 18, 2007

L'amour, l'amour!

Por Joaquim Fonseca

Meus caros amigos e leitores, vocês devem perdoar-me, tenho uma desculpa importante: o caminhão do amor topou comigo. Mais uma vez sinto o peito espremido, o descontrole do pensamento e os meus passos sem calma. Como pode o amor atropelar-me nesta terra onde a seriedade das gravatas oprime todo o frescor dos corações? Atropelar-me nesta terra onde a educação no trânsito parece ser a mais nobre conduta? Mas foi, e eu buscava era apenas a monumental apreciação estética que proporciona nossa bem arquitetada Capital Federal. Mas de novo fui internado na clínica do Cupido. A enfermidade consiste em não amar com o corpo, nem com as mãos, em não sentir o gosto nem o cheiro da amada; e então se ama é com o pensamento, com o como pretendo amá-la. Ah! cortasiana maga, tu que aprendeste a viver e a sentir como os felinos, a entender o idioma deles, para quem as palavras não servem, nem nenhuma artificialidade. Tu, natural como as andorinhas. Ah! Celi.

Apelo a Joaquim Fonseca

Por Alfredo Pestana

Filósofo maior das causas absurdas e ineludíveis, que falta fazes às páginas destes Cadernos que inspiras! Soubesses tu verdadeiramente a intensidade indispensável do caos que engendras no que versas, decerto não nos deixarias perdido neste labirinto que desfazes quando pensas construir. Se teces freqüentemente angústias e perplexidades, não é senão para conforto dos que se achavam sós ante o muro inviolável e assombroso das incertezas e do não mais ter como seguir. Tua desorientação é antes rumo; tuas cartas imaginárias, realidade impalpável a tocar a concretude intrépida da dor. Morcego em trevas, és quem pode erguer o facho de palavras rotas e levar adiante os que te espreitam a esperar-te o gesto. Aceita, amigo, a súplica de um teu sequaz, e de novo expõe em texto a tua curva clarividência!

sábado, fevereiro 17, 2007

Por Antonina Casannova

Porque eu contribuí apenas uma vez com os "cadernos"e me ausentei por considerável período, sinto a necessidadede de dizer que em momento algum me esqueci do motivo deste espaço - motivo muito claro nas palavras de Joaquim Fonseca- ao qual, orgulhosamente, pertenço. No entanto, há momentos em que a poesia se recolhe como uma maré que baixa e tarda a voltar, e então o poeta se questiona sobre sua própria funcionalidade, seu cargo, seu papel, e seus papéis esperam, pacientemente, pelos versos, que custam a vir. Daí nascem os intervalos vazios, as páginas em branco, e , paradoxalmente, os momentos de alegria do poeta. Porque o poeta se sente sozinho é quando escreve, escrever é sua visceral angústia. Mas tenho escrito sim, sobretudo versos infantis, já que vislumbro futuramente lançar um livro voltado ao público infantil.
Sem mais delongas, eis que hoje quero vos deliciar, adoráveis leitores, com os versos de um grande poeta e de um grande amigo: João Olavo Filho. João é belorizontino, meu conterrâneo, boêmio, e um homem que escreve como quem regala um bálsamo. Seu fazer poético, como tudo que ele faz, talvez seja sobrecarregado de uma paixão tão pura e pulsante que delicadamente o impeça de "não" ser um tanto autobiográfico. Ainda assim, vos adverto numa escusada assonância e aliteração: um escritor reflete-se quase sempre em si mesmo, mas não vos esqueçais que a literatura - a arte - é um jogo de máscaras.


"Poema para um adeus feliz

Quando eu morrer
não quero que me cubram de flores:
quero que me cubram da terra plena
de poesia, sob a qual sufoquei minhas dores.

Quando eu morrer
também não quero velas, tampouco presença de vigário;
mas se velas houver,
que seja a velinha bruxuleante e tímida
que enfeitou a torta do meu primeiro aniversário.

Quando eu morrer
por favor, amigos, não chorem nem digam:
"abençoado seja!"
Prefiro que cantem um samba
"sem volta nem ida..."
e que bebam muita cerveja
celebrando os contratempos da vida

Quando eu morrer
levarei comigo um jeito de saudade das madrugadas,
um burburinho de chuva caindo
e um olhar malicioso de namoradas.
Levarei a lembrança da minha cidade
à sombra dos seus viadutos e tantos mil edifícios;
e seguirei cantando, envolvido em silêncio,
alguma canção de Tom e Vinícius.

Quando eu morrer
que me afeiçoem um eterno sorriso
e me enterrem vestido só de meus cabelos.
Mas para não haver espanto,
que me cubram os pêlos
com um poema inacabado que eu fiz sobre o amor,
escrito a mão;
E mesmo não havendo espaço,
amigos meus, por favor,
deitem em meu peito um bom e velho violão."

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Por Jerônimo Boaventura

Palavras de Salomão, que escaparam aos divinos redatores da Sagrada Escritura, já porém as recupero e divulgo, redizendo-as por amor da verdade e da doutrina.

"Sê sábio, porque sejas o teu próprio amigo na ausência deles, e não vás buscar nas cousas ínfimas e nas salabórdias a consolação de estares só."