quinta-feira, agosto 31, 2006

Os Animais

Por Joaquim Fonseca

Antes, gostaria de pedir perdão a Antonina, a quem cogitei, em uma reunião do Clube, dedicar o texto abaixo. Por pura inveja de, eu não sabendo cantar meu sofrimento, o ter de vomitar, imaginei a imunda dedicatória.

Dedico então não a ela, mas a todos que igual a mim são inconscientes e injustos.

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“Porquê Deus não nos criou já feitos? Completos, como foi nascido um bicho a quem só falta o crescimento.” (Mia Couto)

Basta dizer que peidamos muito mal-cheiroso e defecamos pior ainda?
Basta dizer que excretamos as mesmas substâncias dos macacos?
Basta dizer que nascemos de nossos pais treparem que nem cães?
Basta dizer que cada um de nós arde com vontade de cheirar e lamber o sexo alheio?
Basta dizer que mais cedo ou mais tarde estaremos mortos?
Basta dizer que temos pêlos como os porcos e também fedemos como eles?
Basta dizer que somos carnívoros e/ou herbívoros, enfim onívoros?
Basta dizer que estamos vivos e sentimos o mundo por isso?
Basta dizer que quando escrevi “treparem” aí acima o corretor de texto me sugeriu trocar por “terem tido relações sexuais”?
Basta dizer que fazemos tudo para disfarçar?
Basta dizer que temos uma linguagem ultra desenvolvida – da qual nos orgulhamos – no entanto todas as palavras proibidas o são por nos relacionarem como a animália, por exemplo: cú, buceta, seu rabo, a puta que te pariu, merda, bosta, caralho, filho d´uma égua?
Se não basta, meu caro Homo non sapiens non sapiens, o que posso fazer?

terça-feira, agosto 29, 2006

Vida de Antonina (primeira confissão)

Por Antonina Casannova

...porque sou a angústia vivente.
Por baixo de peles tão delicadas
- dentro talvez urgente,
embora por fora pálida –
se esconde meu ser ausente
que está repleto de nada.
Porque sou a angústia respirante
Morrendo agora como antes
E compulsivamente.

Às vezes não sou um deserto,
um rio que procura o mar,
e grito por trás do silêncio.
Chego a pensar que é felicidade...
Mas como esse rio me dói!

Por trás de meu gesto opaco,
de meu ventre vazio,
de minha existência vazia
balança um trapézio.
Além de meu sangue sem gosto,
muito além de meus olhos sem estrelas
um trapézio balança no ar impunemente.

Balança devagar
- como os ponteiros de meu tempo –
sem trapezista ou vento,
pendurado nos ferros do meu coração.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Prefácio

Por Alfredo Pestana

Escrevo, caríssimos, de um apartamento de mobília parca, situado no centro de uma capital qualquer do Ocidente, sem certeza alguma da voz de que me valho.
Cansado de enfrentar inúmeras noites insones e de freqüentar - calado - livrarias, cafés e cinemas ilustres, onde risíveis seres humanos mostram-se e crêem-se primorosos em seus julgamentos estéticos;
Cansado de nada ter que fazer durante longas tardes de sol, em que escuto, por horas, a comovente, mas deveras enfadonha voz de Joaquim Fonseca, eu, que há muito não sei o que é ir além da décima página de um livro vistoso, e que vivo a queimar tabaco e ingerir desmedidas xícaras de café;
Eu, que ainda procuro antigos bordéis e ruas que já não existem, como procuro belas atrizes e suas mágicas pernas;
Eu, passados tantos séculos, insisto em apoderar-me do tédio e transformá-lo em matéria, e, perverso, reitero o desejo de manipular restos de cotidiano e libertá-los da confortável inexpressividade.
Eu, que não sei bem se busco rimas ou desconstruções, lírios ou cacos de vidro, ordeno-me, entrementes, a pena da palavra obrada! E não penses que me julgo capaz de frases sublimes, insolente leitor! Vale-me, por ora, o exercício do estilo, e é por isso que me arrisco a um grafar que não é menos empenhado do que trôpego. Se não te agrada o prefácio, basta-me que eu o tenha feito.

domingo, agosto 27, 2006

Perfeição do caos

Por Joaquim Fonseca,

Quando fui convidado a participar das reuniões do Clube Jatobá e, de um só golpe, a escrever para estes Cadernos, não pude compreender como imaginaram que um louco mentiroso fosse capaz de dizer coisas verdadeiras e belas. Mais surpreendido fiquei ao descobrir o real motivo do convite. Mas, para não entrar em assunto tão molesto e sem importância, vou tratar um tema menos importante ainda: minha concepção de poesia.

Sempre defendi, inclusive nas reuniões do Clube, que o poeta é um gambiarreiro de palavras e eu, como filho de eletricista falido, bem sei que para se fazer uma gambiarra não é necessário mais do que uma mente genial e o que encontrar na reta. Bom, a mente genial não é o meu caso, me resta o que encontrar na reta. Vejamos o que encontro na reta. É... deixa pra lá.

Como nunca gostei de reta, prefiro pensar que escrever em círculo é mais fácil, o problema é que todas as linhas do caderno são retas e penso que por esse motivo nunca fui bom nisso de escrever. Há uns dias, veja, pensava alguma coisa das retas serem uma falsidade, primeiro porque nunca vi uma reta fora das coisas humanas, quer dizer, nunca vi uma reta nas coisas divinas, o próprio Deus escreve por linhas tortas, mas pensemos prático e objetivo, pensemos reto, não, pensemos do mesmo jeito que já íamos pensando antes. Uma vaca, por exemplo, não tem reta nenhuma em seu corpo, seu rabo é mais ou menos reto se ficar parado, mas são só indícios de uma possível, ilusória , reta. Como o tronco de quase todas as árvores, alguns podem ser mais ou menos retos, tipo as palmeiras, por isso os homens gostam delas, dão um ar de grandeza bem ao modo do espírito de nossa espécie.

Enfim, o homem inventou a reta perfeita, fez ruas retas, paredes retas, mesas retas, grades de prisão retas, fez réguas retas para conseguir outras muitas linhas retas e mais uma porção de coisas retas. No final das contas todo mundo acaba acreditando que as retas são de fato perfeitas e reais. Malditos gregos foram fazer colunas retas, a coluna do homem também, dizem, é reta, a minha nem tanto porque sou corcunda, agora pronto.

Acredito, para dizer bem, em uma única reta, na verdade uma força como reta, surge na margem dos círculos por falta de atrito ou suporte. As retas apontam uma única direção, o fim, o transtorno, a queda, o mal.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Desconsiderações Eliminares

Nós, prováveis autores destes cadernos, prováveis porque a estas alturas não se sabe a procedência de nada, sentimos um grandioso prazer pondo em efeito um desejo já envelhecido pelas demoradas conversações no refeitório do Centro de Estudos Literários Salomão[1]. De tão entretidos que íamos com isso de chegar a ser poetas, escritores ou literatos de renome, fundamos o Clube Jatobá; e foi, acabamos por perder aulas sem as quais não aprenderíamos a arte da escritura. Eis aqui, amigos leitores e não-leitores, os que lhes falam.

Quanto ao suporte elegido para estas publicações, por vezes confundido com diário de menininhadébilcomsuasputasgírias, contamos com a benevolência dos que, por sorte, vierem a ler nossas páginas, rogamos, e acreditem, também somos rebeldes e temos, se não doidas gírias, ao menos nascentes neologismos.

Além do mais, caríssimos, façam-nos o obséquio de compreender algo difícil: para nós, universitários, ou melhor, falsos estudantes acostumados à preguiça, à cantina, à bebida, ao violão, a cigarros de muitos tipos etc, é sem fim complicado publicar livros em papel de boa qualidade, breve talvez fotocópia, quem dirá livros de capa dura, nas mais lindas edições, onde abundam comentários elegantes de professores máximo doutorados.

Não ousem porém, leitores, subjugar nossas palavras por ora esquecidas neste mar sem fim donde navegam internautas, desocupados, ladrões, vária sorte de infelizes e qualquer traste humano conectado nisto. Para nós nada importa a não ser o seguinte: viemos do canto das sereias. Aos que entenderem estúpido nosso propósito, contestamos pronto às suas razões para que andem a reclamar junto ao autor do livro caro que vocês, senhores, compraram e não chegaram à décima página por incompetência própria, pois, já que o pagaram com dinheiros seus, têm direito para resmungar e fazer toda asneira que lhes parecer conveniente. Diferente, nossos Cadernos podem ser lidos por todos, a gosto e grátis. Semelhante a uma festa oferecida de bom grado por gentis anfitriões, não convém maldizer nem a recepção, nem a comida, nem a música, nem a fermosura das convidadas, nem nada. Pelo contrário, deve-se elogiar tudo, e à despedida retribuir o convite aos donos da casa, prometendo-lhes um jantar ou um passeio ao campo.

Pronto, tínhamos isso a dizer de início e o fizemos, agora não nos resta mais do que assumir que o Clube Jatobá se orgulha de tê-los como companheiros dedicados a encontrar em nossa literatura remédio às suas pesadas penas, pensamentos enfermos e puras dores. Disse o Senhor, se não disse fingimos que disse, “aquele que canta terá o reino dos céus”.

[1] Assim se costuma referir a FALE-UFMG.