Prefácio
Por Alfredo Pestana
Escrevo, caríssimos, de um apartamento de mobília parca, situado no centro de uma capital qualquer do Ocidente, sem certeza alguma da voz de que me valho.
Cansado de enfrentar inúmeras noites insones e de freqüentar - calado - livrarias, cafés e cinemas ilustres, onde risíveis seres humanos mostram-se e crêem-se primorosos em seus julgamentos estéticos;
Cansado de nada ter que fazer durante longas tardes de sol, em que escuto, por horas, a comovente, mas deveras enfadonha voz de Joaquim Fonseca, eu, que há muito não sei o que é ir além da décima página de um livro vistoso, e que vivo a queimar tabaco e ingerir desmedidas xícaras de café;
Eu, que ainda procuro antigos bordéis e ruas que já não existem, como procuro belas atrizes e suas mágicas pernas;
Eu, passados tantos séculos, insisto em apoderar-me do tédio e transformá-lo em matéria, e, perverso, reitero o desejo de manipular restos de cotidiano e libertá-los da confortável inexpressividade.
Eu, que não sei bem se busco rimas ou desconstruções, lírios ou cacos de vidro, ordeno-me, entrementes, a pena da palavra obrada! E não penses que me julgo capaz de frases sublimes, insolente leitor! Vale-me, por ora, o exercício do estilo, e é por isso que me arrisco a um grafar que não é menos empenhado do que trôpego. Se não te agrada o prefácio, basta-me que eu o tenha feito.


4 Comments:
vc parece que bebe café amargo com tristeza.. emocionante o texto
Muito criativo e tocante o seu texto, parabéns!
Esse texto toca uma questão interessante da modernidade, muito bem, velho, gostei.
Escreve maaais!!!
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