domingo, agosto 27, 2006

Perfeição do caos

Por Joaquim Fonseca,

Quando fui convidado a participar das reuniões do Clube Jatobá e, de um só golpe, a escrever para estes Cadernos, não pude compreender como imaginaram que um louco mentiroso fosse capaz de dizer coisas verdadeiras e belas. Mais surpreendido fiquei ao descobrir o real motivo do convite. Mas, para não entrar em assunto tão molesto e sem importância, vou tratar um tema menos importante ainda: minha concepção de poesia.

Sempre defendi, inclusive nas reuniões do Clube, que o poeta é um gambiarreiro de palavras e eu, como filho de eletricista falido, bem sei que para se fazer uma gambiarra não é necessário mais do que uma mente genial e o que encontrar na reta. Bom, a mente genial não é o meu caso, me resta o que encontrar na reta. Vejamos o que encontro na reta. É... deixa pra lá.

Como nunca gostei de reta, prefiro pensar que escrever em círculo é mais fácil, o problema é que todas as linhas do caderno são retas e penso que por esse motivo nunca fui bom nisso de escrever. Há uns dias, veja, pensava alguma coisa das retas serem uma falsidade, primeiro porque nunca vi uma reta fora das coisas humanas, quer dizer, nunca vi uma reta nas coisas divinas, o próprio Deus escreve por linhas tortas, mas pensemos prático e objetivo, pensemos reto, não, pensemos do mesmo jeito que já íamos pensando antes. Uma vaca, por exemplo, não tem reta nenhuma em seu corpo, seu rabo é mais ou menos reto se ficar parado, mas são só indícios de uma possível, ilusória , reta. Como o tronco de quase todas as árvores, alguns podem ser mais ou menos retos, tipo as palmeiras, por isso os homens gostam delas, dão um ar de grandeza bem ao modo do espírito de nossa espécie.

Enfim, o homem inventou a reta perfeita, fez ruas retas, paredes retas, mesas retas, grades de prisão retas, fez réguas retas para conseguir outras muitas linhas retas e mais uma porção de coisas retas. No final das contas todo mundo acaba acreditando que as retas são de fato perfeitas e reais. Malditos gregos foram fazer colunas retas, a coluna do homem também, dizem, é reta, a minha nem tanto porque sou corcunda, agora pronto.

Acredito, para dizer bem, em uma única reta, na verdade uma força como reta, surge na margem dos círculos por falta de atrito ou suporte. As retas apontam uma única direção, o fim, o transtorno, a queda, o mal.