quarta-feira, maio 20, 2009

A parte alguma

Por Joaquim Fonseca

Que la ciudad se llene de largas noches y calles frías. (Joaquín Sabina)

Indiferente e pensativo
caminho pelas calçadas
mastigando versos
atento à frieza das moças.

A ociosidade com que me largo
leva-me a ler nas caras
a origem, a profissão e o caráter
dos que regressam a casa.
Muitos deles vejo somente
através dos vidros dos carros.

Numa sorte de sonambulismo
a única realidade que persigo
é a de perder-me nestas ruas
é a de misturar minha cara entre as outras.

Este bairro é belo e sujo
seus fantasmas sabem de mim
assim como sei deles.
Sei também dos empregados das lojas,
a esta hora todas fechadas,
apenas os vejo, nunca escuto suas vozes.

Há mil perigos, e sou indiferente a todos,
se me beijam, se me matam, se me roubam,
não quero mais do que seguir
observando a iluminação das casas e dos prédios.

Ao acaso vejo numa varanda
alguém vendo que estou vendo;
é um senhor desiludido da vida,
fumando enquanto tudo passa,
passam os automóveis e as motocicletas,
pessoas de todas as variedades.

O fluxo humano com o avançar da noite

se dissolve. As calçadas
podem levar-me, como aos outros, a casa
ou a abismos maiores.

segunda-feira, maio 18, 2009

Vuelo y pesadilla o pesadilla y vuelo

Por Joaquim Fonseca

Un hada silvestre me conducía
hacia las ásperas vegetaciones
por un sendero penumbroso
a la hora del rojo poniente.

He visto insectos multicolores
moviéndose al borde de la vía.
El suelo gris se traspasaba
calmo en el silencio.
Yo sabía que me estaba llevando
a lo más hondo del bosque.

De repente, penetramos no en la selva
pero en un infinito desierto.
Todo había cambiado cuando
lentamente el cielo oscurecía.

El abandono gobierna estas regiones, escuché,
desde adentro.

Además, las brillantes poblaciones del cielo
emanaban un sonido malo, imperceptible.
Por la distancia no lo oía, pero lo sentía.

A fuerza de una esperanza oculta
he volado la superficie de arena
hasta la velocidad del silencio;
y, de golpe, tomé el rumbo de las estrellas.
Al extremo horizonte fui
pero la salida no se hizo clara.

Vi, en una esquina, a dos niñas que jugaban
a la sombra negra de la noche.
Tenían las piernitas cruzadas
y los corazones contaminados.

domingo, maio 17, 2009

Dor e apatia

Por Joaquim Fonseca

Os sonhos que eu tinha morreram,
os fui com o tempo enterrando
em quintais de casas alugadas.

O que é que não se perde?
Quantas lembranças perdi?
Tudo é desilusão e ilusão.

Neste mundo eterno e vazio,
todos somos barro e nada,
barro onde a dor mora.

A cidade em que nasci
já não existe em mim
não saberia chegar a ela.

A família que não tenho
faz-me falta
mas eu não falto a eles.

Sem lar nem sonhos
não sei aonde ir.

sexta-feira, maio 15, 2009

Sobre ser escritor

Por Joaquim Fonseca

Eu e meu insuperável gênio romântico! A despeito de todo o aprendido em longas sessões literárias e em anos na universidade, não sei trabalhar. Escrevo por ataques de inspiração. Sei que assim não vou chegar a lugar nenhum, se muito, haverá no futuro, ou hoje, indivíduos que me entendam parcialmente, a quem chamarei de meus amigos. Não me considero capaz de outra coisa que a escrita, ao mesmo tempo sou completamente incapaz dela. Basicamente escrevo mal. A dialética nunca me serviu de nada, minhas leituras não passam de repetições de frase que memorizo sem a menor compreensão global do texto. Desde minha adolescência, desde minha tardia escrita - não aprendi no tempo certo, não considero que saiba ortografia, nem que saiba elaborar de modo correto um raciocínio, minha sintaxe é muito duvidável, devo cometer erros de que nem faça idéia – nunca achei que seria outra coisa senão escritor.

Resta-me contar com o êxito de algum sócio que construa uma barca grande e me leve junto à glória desta Era e das próximas. No fundo, não me interessa saber escrever.

terça-feira, maio 12, 2009

Outras mãos

Meus sócios destas páginas - todos – já publicaram textos alheios, eu ainda não havia feito. Hoje planto aqui, não para compensar aos sócios, o poema de um amigo. Sebastião Sampaio vive em Itabira, na rua da Conceição, a mesma onde vivi durante onze anos e em cujas esquinas travei amizade com o poeta. Há pouco, ele me escreveu e ao final da carta mandou-me este poema de sua autoria. Atualmente, trabalha como técnico em monitoramento da qualidade do ar na Companhia Vale do Rio Doce, tem 27 anos e duas filhas: Carmem e Ester; sua mulher, Rafaela, costura vestidos e foi da cidade de Coronel Fabriciano com os pais a residir em Itabira no ano de 1999.

Joaquim Fonseca


Por Sebastião Sampaio

Não vou ousar tocar a luz
enquanto os olhos velados
no triste ar que se deduz
permanecerem parados.

Vou buscar no vento sul
os sonhos do amor comum.
Se olhar bem para este sul
não existe amor nenhum.

Quero olhar bem para o meu
passado que não morreu
quando descobrir o que é seu
volto a procurar o meu.

Sem saber o que é saudade
e sem ter um coração
caminho pela cidade
em ruas de contramão.