A parte alguma
Por Joaquim Fonseca
Que la ciudad se llene de largas noches y calles frías. (Joaquín Sabina)
Indiferente e pensativo
caminho pelas calçadas
mastigando versos
atento à frieza das moças.
A ociosidade com que me largo
leva-me a ler nas caras
a origem, a profissão e o caráter
dos que regressam a casa.
Muitos deles vejo somente
através dos vidros dos carros.
Numa sorte de sonambulismo
a única realidade que persigo
é a de perder-me nestas ruas
é a de misturar minha cara entre as outras.
Este bairro é belo e sujo
seus fantasmas sabem de mim
assim como sei deles.
Sei também dos empregados das lojas,
a esta hora todas fechadas,
apenas os vejo, nunca escuto suas vozes.
Há mil perigos, e sou indiferente a todos,
se me beijam, se me matam, se me roubam,
não quero mais do que seguir
observando a iluminação das casas e dos prédios.
Ao acaso vejo numa varanda
alguém vendo que estou vendo;
é um senhor desiludido da vida,
fumando enquanto tudo passa,
passam os automóveis e as motocicletas,
pessoas de todas as variedades.
O fluxo humano com o avançar da noite
se dissolve. As calçadas
podem levar-me, como aos outros, a casa
ou a abismos maiores.

