Soneto VI
Por Jerônimo Boaventura
Muitos já me indagaram sobre a vida e poesia de Gaspar de Almeida, triste poeta que não raramente hei trazido à baila nos Cadernos, informando com alguma substância os curiosos de literatura de língua portuguesa. Disse-lhes o que pude acerca do indagado, honesto como sou nas cousas que sei, mas creio não os ter satisfeito a esses leitores, pois, passado um espaço, nasceu entre eles a suspeita de que eu fora o próprio poeta Gaspar de Almeida.
A honra que eu arrogaria de tal confusão não me dá, porém, o direito de macular a verdade e os méritos de um poeta que passa intolerável desdém dos estudiosos da poesia portuguesa e brasileira, com jamais tomar assento num florilégio ou numa outra publicação dessa natureza.
E a verdade que é não sou Luís Gaspar de Almeida, o que anuncio sem pesar nem alegria, apenas amparado na realidade objetiva de que sou Jerônimo e nada mais, e isso, pouco ou muito que seja, me basta a mim. Se não atende a imaginação dos leitores amantes de pseudônimos e de adivinhas literárias, desculpo-me por facilitar-lhes o trabalho com manter-me íntegro ao revés de dividir-me em dous, três ou mil escrevinhadores.
Dito isso, lá vai um poema mais do triste poeta português Gaspar de Almeida, talvez o último antes de um intervalo em que vos pretendo oferecer obras de outros escritores, sejam célebres, sejam obscuros, à guisa de variação das leituras que vos proponho.
Valete!
Soneto VI
Amor me tem laçado, noite e dia,
Nas finíssimas linhas da lembrança;
E se o tempo, em correr, somente avança,
Do tempo eu, em cismar, regresso a via.
A dor presente assim minha alma adia,
Buscando no passado a esperança,
Mas ao contentamento nunca alcança,
Porquanto te não vejo então, e via.
Com amar e viver imaginando,
Não há depor a cruz desta saudade,
Antes se faz mais grave, e vou curvando.
Acaso Amor me negue a liberdade,
Seja-me dado em braços teus – demando –
Crucificar-me pela eternidade.
Luís Gaspar de Almeida


3 Comments:
Quem passar pelo sertãããããão
Vai ouvir alguém falaaaaaaaaar
No herói desta cançãããããão,
Que eu venho aqui cantaaaaaaar!
Se é pro bem vai encontraaaaar,
Um Jerônimo protetooooooor,
Se é pro mal vai enfrentaaaaaar
Um Jerônimo lutadoooooor.
Clube Jatobá,
leio suas publicações há algum tempo, embora nunca tenha me manifestado. Os textos denunciam talentos verdadeiros e encantadores.
Quero pedir ao Jerônimo Boaventura que continue revelando as obras de Luís Gaspar de Almeida. Os sonetos têm uma beleza delicada e triste.
Obrigado.
Anseio por conhecer tao notáveis criaturas!De quem escutei encantadoras anedotas!Espero que o amor nos inspire sempre!
Viva este clube e toda a fortuna que esses cavalheiros nos proporcionam!
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