sábado, março 17, 2007

Trecho: O Sábio Celibatário.

Por Joquim Fonseca

"Es sabido que la identidad parsonal reside en la memoria y que la anulación de esa facultad comporta la idiotez"
Borges, Historia de la eternidad

De fato não importa nada, senão o esquecimento, a perda definitiva de todas tuas lembranças. Esquece a casa de tua infância e o teu bairro, o nome de teus vizinhos mais amáveis e também suas caras. Principalmente esquece a ternura – se é que a tinham – de teus parentes. Esquece tua escola, sobretudo esquece todas as lições que te deram a tua primeira professorinha e todas outras professorinhas. Esquece teus erros, pecados, blasfêmias, irresponsabilidades, invejas, e também teus atos louváveis. Esquece teus amigos melhores, com os que por acaso alguma vez sentiste a felicidade infinita dos instantes compartilhados. Esquece, esquece a menina a quem beijaste sob a lua crescente, a primeira vez que lhe tocaste o seio, esquece também as outras mulheres. Esquece o sabor do leite, do pão, da uva, do sal, todos os sabores que alguma vez provaste. Esquece os livros que te reinventaram o mundo, os poemas em que sonhaste, os sonhos que não esqueces, esquece-os. Esquece a música, os poentes e as auroras, as árvores do parque onde costumavas passar as tardes. Esquece as cidades que não são tuas, mas que vivem na tua memória. Teu idioma, tua pátria, esquece.

terça-feira, março 13, 2007

Sobre exibidos e inibidos (Sábio Celibatário)

Por Joaquim Fonseca

A solidão é difícil e os covardes a evitam porque são cretinos. Tampouco escolhem estar rodeados de comparsas iguais, cretinos e covardes. Têm a máscara tão pregada que a arrancar os mataria. Esses abomináveis se abraçam e gozam quando amam, esfregam-se uns nos outros e riem. Se acaso estão sós, para eles não há pior inferno.

Outros, ao contrário, têm a alma exposta e as almas são terríveis para os homens. Como para os seres patologicamente solitários não há nem Deus nem Anjos, também não há remédio. Acabam derrotados em si, que o exterior não faz sentido, nem o prazer, nem a vida, nem as belezas e feiuras: deixam de sentir, porque as almas não sentem.

segunda-feira, março 05, 2007

Por Jerônimo Boaventura

Muse, changeons de stile et quittons le lyrisme!

Admiráveis ledores, o que de júbilo venho experimentando nestes gloriosos Cadernos! Confesso-me grandemente honrado com neles participar e com haver por sócios escritores tão amigos da beleza! Por outro, o peito se me comprime e a consciência se me pesa, pelo não vos andar ofertando flores perfumadas e belas, quais as que meus colegas vos hão ofertado, e pelo não lhes andar dedicando elogios e aplausos, quais os que vós lhes haveis dedicado; naquilo falho por fraqueza de estilo, nisto por desleixo e injustiça, pois que eles muito merecem louvados no que fazem, e vós atendidos no que esperam.

Cuido que não posso desempenhar mais que a metade desta dívida. Certo, se não me falecem razões para os louvar, muito careço saber fazê-lo, pelo ser rude e inábil a minha pena, sobre me faltarem altos sentimentos que a animem.

Desta arte, ó resignados ledores, parcialmente me redimo, agradecendo enfim aos queridos Joaquim Fonseca, Antonina Casannova e Alfredo Pestana o talento que emprestam a estes Cadernos, ilustrando-me o nome que houvera de ser obscuro e ignoto se não compusesse o sublime e único Clube Jatobá.

No que respeita a vós, que me ledes por falta de cousa mais saborosa, participo que tencionei ganhar o Helicão para igualmente beber da fonte Hipocrene e, a não ser possível vos afogar em torrentes de poesia, qual já fizeram meus amigos, ao menos vos lançar alguns perdigotos líricos sobre o coração. Infelizmente revelo minhas empresas malograram, pois indo eu a esquadrinhar os flancos ao monte sagrado, interditou-me cedo uma das Musas. Vestida em branco e coroada de flores, gesticulava ela com graça e firmeza a um tempo, e as palavras lhe saíam macias e perfumosas. Era por força Polímnia que, ao avistar-me, indagou-me docemente a origem e a tenção. Como eu lhe participasse o desejo de agradar os ledores com certos versos líricos, para logo afastou-me a idéia, pretextando em gestos largos e de voz segura que minha índole, moralista e pouco sensível, não quadra a esse tipo de obra, mais afeita a espíritos flébeis e moles.

Ouvi-a discursar calado, como é de razão quando se nos apresenta um adversário de invicta oratória e argumentação cerrada. Se Erato e seus dotes amorosos me eram negados, porventura pudera privar com outra Musa, mais condizente comigo, qual seja, a retumbante Calíope. Entristeci-me entretanto ao conhecer que a Musa das palavras sonoras e grandiloqüentes anda sofrendo de tédio e tristeza, por amor de jamais os poetas lhe invocarem o canto nas últimas épocas.

Simpatizei com a sua dor, despedi-me de Polímnia ao sopé do verdejante e gracioso monte e retornei a casa meditando.

Nessa conjuntura, ótimos amigos, não alcancei o escrevinhar versos líricos que vos alimentassem a alma, mas me acendeu a luz de reviver um dia a voz retumbante e larga da epopéia primeiro que se me corte o fio da vida.

Ultimamente, como parcial reparação da minha falta, ofereço-vos este singelo vilancete do grande poeta Gaspar de Almeida, tanto mais celebrado quanto mais infeliz, que por certo já conheceis, o qual vilancete servirá de delícia e de utilidade para rematar com substância o pouco que levo dito.

Valete!

Moto

Vi passar de tristes olhos,
A padecer e a chorar,
Minh’alma sob o luar.

Voltas

Era sobre tarde, amigo,
Quando se me deparou
O fatal vulto inimigo
Da dona a quem sempre amou
E nos versos exaltou,
Continuamente a cantar,
Minh’alma sob o luar.

De amenas notas repleta,
Modulou-se a melodia,
Por dourar a alma dileta
Da dona a quem sempre via,
Pela noute fugidia
Lentamente passear,
Minh’alma sob o luar.

Mas nisso eu lograva nada,
A bem de maior tormento.
Pois a dona, minh’amada,
Desdenhava-me o intento.
Lamento sobre lamento,
Eterna foi-se a vagar
Minh’alma sob o luar.

Luís Gaspar de Almeida