Muse, changeons de stile et quittons le lyrisme!
Admiráveis ledores, o que de júbilo venho experimentando nestes gloriosos Cadernos! Confesso-me grandemente honrado com neles participar e com haver por sócios escritores tão amigos da beleza! Por outro, o peito se me comprime e a consciência se me pesa, pelo não vos andar ofertando flores perfumadas e belas, quais as que meus colegas vos hão ofertado, e pelo não lhes andar dedicando elogios e aplausos, quais os que vós lhes haveis dedicado; naquilo falho por fraqueza de estilo, nisto por desleixo e injustiça, pois que eles muito merecem louvados no que fazem, e vós atendidos no que esperam.
Cuido que não posso desempenhar mais que a metade desta dívida. Certo, se não me falecem razões para os louvar, muito careço saber fazê-lo, pelo ser rude e inábil a minha pena, sobre me faltarem altos sentimentos que a animem.
Desta arte, ó resignados ledores, parcialmente me redimo, agradecendo enfim aos queridos Joaquim Fonseca, Antonina Casannova e Alfredo Pestana o talento que emprestam a estes Cadernos, ilustrando-me o nome que houvera de ser obscuro e ignoto se não compusesse o sublime e único Clube Jatobá.
No que respeita a vós, que me ledes por falta de cousa mais saborosa, participo que tencionei ganhar o Helicão para igualmente beber da fonte Hipocrene e, a não ser possível vos afogar em torrentes de poesia, qual já fizeram meus amigos, ao menos vos lançar alguns perdigotos líricos sobre o coração. Infelizmente revelo minhas empresas malograram, pois indo eu a esquadrinhar os flancos ao monte sagrado, interditou-me cedo uma das Musas. Vestida em branco e coroada de flores, gesticulava ela com graça e firmeza a um tempo, e as palavras lhe saíam macias e perfumosas. Era por força Polímnia que, ao avistar-me, indagou-me docemente a origem e a tenção. Como eu lhe participasse o desejo de agradar os ledores com certos versos líricos, para logo afastou-me a idéia, pretextando em gestos largos e de voz segura que minha índole, moralista e pouco sensível, não quadra a esse tipo de obra, mais afeita a espíritos flébeis e moles.
Ouvi-a discursar calado, como é de razão quando se nos apresenta um adversário de invicta oratória e argumentação cerrada. Se Erato e seus dotes amorosos me eram negados, porventura pudera privar com outra Musa, mais condizente comigo, qual seja, a retumbante Calíope. Entristeci-me entretanto ao conhecer que a Musa das palavras sonoras e grandiloqüentes anda sofrendo de tédio e tristeza, por amor de jamais os poetas lhe invocarem o canto nas últimas épocas.
Simpatizei com a sua dor, despedi-me de Polímnia ao sopé do verdejante e gracioso monte e retornei a casa meditando.
Nessa conjuntura, ótimos amigos, não alcancei o escrevinhar versos líricos que vos alimentassem a alma, mas me acendeu a luz de reviver um dia a voz retumbante e larga da epopéia primeiro que se me corte o fio da vida.
Ultimamente, como parcial reparação da minha falta, ofereço-vos este singelo vilancete do grande poeta Gaspar de Almeida, tanto mais celebrado quanto mais infeliz, que por certo já conheceis, o qual vilancete servirá de delícia e de utilidade para rematar com substância o pouco que levo dito.
Valete!
Moto
Vi passar de tristes olhos,
A padecer e a chorar,
Minh’alma sob o luar.
Voltas
Era sobre tarde, amigo,
Quando se me deparou
O fatal vulto inimigo
Da dona a quem sempre amou
E nos versos exaltou,
Continuamente a cantar,
Minh’alma sob o luar.
De amenas notas repleta,
Modulou-se a melodia,
Por dourar a alma dileta
Da dona a quem sempre via,
Pela noute fugidia
Lentamente passear,
Minh’alma sob o luar.
Mas nisso eu lograva nada,
A bem de maior tormento.
Pois a dona, minh’amada,
Desdenhava-me o intento.
Lamento sobre lamento,
Eterna foi-se a vagar
Minh’alma sob o luar.
Luís Gaspar de Almeida