Estética do incapaz
Por Alfredo Pestana
“(...) Tenho de escrever como cumprindo um castigo. E o maior castigo é o de saber que o que escrevo resulta inteiramente fútil, falhado e incerto.”
Bernardo Soares – Livro do desassossego
Vaga estética a que me lanço incauto, pudesse eu dar-te forma tão bem quanto te sinto n’alma... Ardo-me a teus pés, emparedado: não tive em vida a prudência de não almejar e tampouco a glória de saber fazer. Canto mas sem romper com a voz o cerco de que não me evado.
Sempre que tentei o salto acreditei no salto... mas tive sempre de, desajeitado, recolher do chão, ante o público ruidoso, o corpo do palhaço parvo. Sempre que tentei um ato, tive de deixar o palco antes de acabar a farsa, imolado pela vaia unânime dos que me assistiam - vivendo eu a, que não sabia representar, tragédia: o aguardar as palmas. O que a vida fez foi apontar-me a estrada e retirar-me as pernas. Se canto ainda é por não ter escolha: nasci p’ra falha - e em que mais erro é no entoar a voz.

