sábado, abril 28, 2007

Estética do incapaz

Por Alfredo Pestana

“(...) Tenho de escrever como cumprindo um castigo. E o maior castigo é o de saber que o que escrevo resulta inteiramente fútil, falhado e incerto.”
Bernardo Soares – Livro do desassossego


Vaga estética a que me lanço incauto, pudesse eu dar-te forma tão bem quanto te sinto n’alma... Ardo-me a teus pés, emparedado: não tive em vida a prudência de não almejar e tampouco a glória de saber fazer. Canto mas sem romper com a voz o cerco de que não me evado.
Sempre que tentei o salto acreditei no salto... mas tive sempre de, desajeitado, recolher do chão, ante o público ruidoso, o corpo do palhaço parvo. Sempre que tentei um ato, tive de deixar o palco antes de acabar a farsa, imolado pela vaia unânime dos que me assistiam - vivendo eu a, que não sabia representar, tragédia: o aguardar as palmas. O que a vida fez foi apontar-me a estrada e retirar-me as pernas. Se canto ainda é por não ter escolha: nasci p’ra falha - e em que mais erro é no entoar a voz.

Por Joaquim Fonseca

A história começou no fim da tarde de ontem, com um telefonema do Pestana que me anunciava a proposta do Jerônimo de todos escrevermos cada um um texto até o meio-dia seguinte. Como para mim essa tarefa é agradável, aceitei logo.

Por causa de uns dias feriados pela frente, todos deviam estar contentes com a oportunidade do ócio e garantiam oferecer textos escritos velozmente. Notei na voz do Pestana uma certa alegria pouco comum nos existencialistas, considerei o fato estranho, mas não o quis advertir de que tal euforia não combinava com seu espírito tão amigo do tédio.

Recebida pois a incumbência, fui até a padaria da esquina e comprei, com meu único dinheiro, uma garrafa de vinho e um maço de cigarros. Estava decidido a mergulhar nas páginas em branco e transformar a bebida a fumaça e a noite em palavras com que pudesse inebriar os leitores destes cadernos.

Mal tomado o primeiro copo, mal fumado o primeiro cigarro, mal passada a primeira hora o sono já roia os confins do raciocínio. Então, de raiva, larguei de lado o caderno e o lápis e fui procurar na televisão algum daqueles canais onde costumam colocar meninas com os seios de fora.

Por Jerônimo Boaventura.

Ó ledores destes Cadernos, tenho que vos é devida uma explicação, pois a árvore que tanto vos sombreava com a sua copa e tão bem vos alimentava com os seus frutos vos tem negado nos dias passados os mesmos frutos assim como a mesma sombra. Razão vos cabe em reclamar o emolumento da vossa leitura, ó amigos, pois se por um lado vos entregávamos o produto da nossa arte e da nossa reflexão, por outro lado nos concedíeis a atenção de vossos olhos e do vosso espírito.

Não é de admirar que doravante deixeis este Jatobá, cuja sombra escassa e frutos pouco saborosos vos eram oferecidos parcamente, mas em razão bastante para vos refrescar o calor da displicência e saciar a fome de conhecimento. Já porém a árvore nada vos oferece, como má pagadora de vossa companhia.

A verdade é que os sócios deste Clube descobrimos onde reside a vitória e, para miséria e desespero do leitor inteligente, não é no pardieiro das letras, mas na mansão dos desportos. Sei que me lês com os olhos agudos da suspeita, pudica leitora, mas estás a retribuir mal a verdade que ora te revelo. Ignoro o que dizer mais. Domina-me igual escrúpulo ao do mestre Vieira, e “ocorre aqui ao pensamento o que não é lícito sair à língua”.

Porventura confesso para a minha tranqüilidade: sou um vencido.

Valete!