Por Joaquim Fonseca
O poema abaixo saiu de minha própria pena, que, atacada pela comichão, não me deu paz até que fosse dado à luz. Pus-lhe um título que corresponde aos seus dois primeiros versos “Algo me move não sei o que”. O poema levanta hipóteses sobre o que seja essa motivação, creio que uma hipótese e uma semi-hipótese.
Temo, por haver eu mencionado a comichão, que o leitor imagine ser essa moléstia tema e matéria do poema. Tal leitura seria chistosa e pouco sensível.
Pois bem, tendo-o coberto com escudo e manta, dou-lho a ler, leitor generoso.
Algo me move não sei o que
Algo me move
não sei o que.
Buscaria saber por toda vida
se disposição tivesse
para revirar entulhos.
O que quer que seja
anda oprimido pelo passar dos dias.
Apenas aturo.
Se antes lhe chamaria essência
hoje não lhe dou nome.
Empenhado em afastar maus sentimentos
recorro a isso;
o resultado é equivalente a nada.
Diante dos demais
vaza dali um vapor que deixa nódoas.
Prefiro afastar-me
a permitir que notem em mim essa fratura.
Inutilmente;
nos não é dado escondê-la,
não nos é dado esconder nada.
Será o pulsar do coração?
Não, não há de ser.
Engana-se aquele que,
tocado pelo sopro da verdade,
afirma conhecer esses princípios.