quarta-feira, janeiro 30, 2008

Fiat Lux

Por Jerônimo Boaventura

Queridos leitores, rendei graças ao nobre Joaquim Fonseca!

Não fora a epístola que nos destinara, a qual venho de ler emocionado e agradecido, em que houve o sócio expressar nobremente toda a sua saudade, longe como está de Curral Del-Rey e dos mais sócios, não fora a sua epístola, redigo, cuja lição ora me move a pena e o pensamento, estaria eu aplicando o tempo em cousas talvez que infrutíferas para o vosso interesse, como é o pastorear rebanhos, mister ao qual me tenho entregado nesta estação que vai.


Na carta, com efeito, o grande Fonseca, exagerando-me as qualidades, decerto por amigo, chamou-me “o Iluminador, lanterna sem a qual o Jatobá sucumbiria, ou, à deriva, estacionar-se-ia em terreno infértil”. Faço figa que os leitores creiam em ti, dileto Joaquim, e me seja dado gozar de muitas benesses no mundo, passando por tudo quanto dizes que sou, sem contudo o ser, jamais me esquecendo de mostrar aos bons as verdadeiras luzes que iluminam este nunca assaz louvado Jatobá.

Pois, data venia, amigo Fonseca, o luzeiro maior deste Clube és tu, (e aqui pressinto o anuir de Pestana e Casannova), tendo-o fundado e instituído sob inspiração prometéica, pelo que estamos cá, graças a ti, subtraindo o fogo do Olimpo, a fazer gaifonas aos deuses acadêmicos, a combater a idiotia do Jorge Capanema, a traçar versos a bailarinas, a navegar por mar de lágrimas, a viver na poesia, acostumados ao sonho.

Germinou a semente, a árvore deitou raízes pelos campos áridos do Curral, medrou, abriu os raminhos, avolumou-se, tornou-se frondoso o Jatobá, deu frutos e sombra, nutriu e refrescou os leitores atribulados e famintos. Eis a tua recompensa, filósofo Joaquim Fonseca, eis o vosso galardão, nobilíssimos sócios! Glórias prevejo para este Clube, glórias que farte! Animai-vos, sede firmes, qual guerreiro excelente e bravo não abandona o gládio, senão que o empunha e brande com valor e denodo até a hora derradeira, assim tomai da vossa pena e nunca jamais a descanseis, sempre sempre em prol do estilo e... da verdade!


Abaixo vai um poemeto de Niccolò Tommaseo (1802-1874); lendo “O Falecido Mattia Pascal”, dei com esta pequena jóia poética, com a qual quisera mimosear-vos, caros leitores, mas, sem matéria onde engastá-la, guardei-a no relicário do meu coração. Tomei por bom sinal a metáfora de Joaquim Fonseca sobre a lanterna e, cuidando-me deveras o iluminador, vim trazer um poucachinho de luz aos leitores.

Valete!

La piccola mia lampa
Non, come sol, risplande,
Nè, come incendio, fuma;
Non stride e non consuma,
Ma con la cima tende
Al ciel che me la diè.
Starà su me, sepolto,
Viva; nè pioggia o vento,
Nè in lei le età potranno;
E quei che passeranno
Erranti, a lume spento,
Lo accenderan da me.

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Minha pequenina lâmpada,
Não resplende, como o sol,
Nem, tal como fogo, fuma;
Não estridula, não gasta,
Porém, com seu cimo, tende
Para o céu, que ma doou.
Será sobre mim, sepulto,
Viva; e nem chuva ou vento,
Nem o tempo terá, nela,

Efeito; e os que passarem,
Errantes, lume apagado,
Em mim o acenderão
.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Soneto VI

Por Jerônimo Boaventura

Muitos já me indagaram sobre a vida e poesia de Gaspar de Almeida, triste poeta que não raramente hei trazido à baila nos Cadernos, informando com alguma substância os curiosos de literatura de língua portuguesa. Disse-lhes o que pude acerca do indagado, honesto como sou nas cousas que sei, mas creio não os ter satisfeito a esses leitores, pois, passado um espaço, nasceu entre eles a suspeita de que eu fora o próprio poeta Gaspar de Almeida.


A honra que eu arrogaria de tal confusão não me dá, porém, o direito de macular a verdade e os méritos de um poeta que passa intolerável desdém dos estudiosos da poesia portuguesa e brasileira, com jamais tomar assento num florilégio ou numa outra publicação dessa natureza.
E a verdade que é não sou Luís Gaspar de Almeida, o que anuncio sem pesar nem alegria, apenas amparado na realidade objetiva de que sou Jerônimo e nada mais, e isso, pouco ou muito que seja, me basta a mim. Se não atende a imaginação dos leitores amantes de pseudônimos e de adivinhas literárias, desculpo-me por facilitar-lhes o trabalho com manter-me íntegro ao revés de dividir-me em dous, três ou mil escrevinhadores.

Dito isso, lá vai um poema mais do triste poeta português Gaspar de Almeida, talvez o último antes de um intervalo em que vos pretendo oferecer obras de outros escritores, sejam célebres, sejam obscuros, à guisa de variação das leituras que vos proponho.

Valete!

Soneto VI

Amor me tem laçado, noite e dia,
Nas finíssimas linhas da lembrança;
E se o tempo, em correr, somente avança,
Do tempo eu, em cismar, regresso a via.

A dor presente assim minha alma adia,
Buscando no passado a esperança,
Mas ao contentamento nunca alcança,
Porquanto te não vejo então, e via.

Com amar e viver imaginando,
Não há depor a cruz desta saudade,
Antes se faz mais grave, e vou curvando.

Acaso Amor me negue a liberdade,
Seja-me dado em braços teus – demando –
Crucificar-me pela eternidade.

Luís Gaspar de Almeida