Fiat Lux
Por Jerônimo Boaventura
Queridos leitores, rendei graças ao nobre Joaquim Fonseca!
Não fora a epístola que nos destinara, a qual venho de ler emocionado e agradecido, em que houve o sócio expressar nobremente toda a sua saudade, longe como está de Curral Del-Rey e dos mais sócios, não fora a sua epístola, redigo, cuja lição ora me move a pena e o pensamento, estaria eu aplicando o tempo em cousas talvez que infrutíferas para o vosso interesse, como é o pastorear rebanhos, mister ao qual me tenho entregado nesta estação que vai.
Na carta, com efeito, o grande Fonseca, exagerando-me as qualidades, decerto por amigo, chamou-me “o Iluminador, lanterna sem a qual o Jatobá sucumbiria, ou, à deriva, estacionar-se-ia em terreno infértil”. Faço figa que os leitores creiam em ti, dileto Joaquim, e me seja dado gozar de muitas benesses no mundo, passando por tudo quanto dizes que sou, sem contudo o ser, jamais me esquecendo de mostrar aos bons as verdadeiras luzes que iluminam este nunca assaz louvado Jatobá.
Pois, data venia, amigo Fonseca, o luzeiro maior deste Clube és tu, (e aqui pressinto o anuir de Pestana e Casannova), tendo-o fundado e instituído sob inspiração prometéica, pelo que estamos cá, graças a ti, subtraindo o fogo do Olimpo, a fazer gaifonas aos deuses acadêmicos, a combater a idiotia do Jorge Capanema, a traçar versos a bailarinas, a navegar por mar de lágrimas, a viver na poesia, acostumados ao sonho.
Germinou a semente, a árvore deitou raízes pelos campos áridos do Curral, medrou, abriu os raminhos, avolumou-se, tornou-se frondoso o Jatobá, deu frutos e sombra, nutriu e refrescou os leitores atribulados e famintos. Eis a tua recompensa, filósofo Joaquim Fonseca, eis o vosso galardão, nobilíssimos sócios! Glórias prevejo para este Clube, glórias que farte! Animai-vos, sede firmes, qual guerreiro excelente e bravo não abandona o gládio, senão que o empunha e brande com valor e denodo até a hora derradeira, assim tomai da vossa pena e nunca jamais a descanseis, sempre sempre em prol do estilo e... da verdade!
Abaixo vai um poemeto de Niccolò Tommaseo (1802-1874); lendo “O Falecido Mattia Pascal”, dei com esta pequena jóia poética, com a qual quisera mimosear-vos, caros leitores, mas, sem matéria onde engastá-la, guardei-a no relicário do meu coração. Tomei por bom sinal a metáfora de Joaquim Fonseca sobre a lanterna e, cuidando-me deveras o iluminador, vim trazer um poucachinho de luz aos leitores.
Valete!
La piccola mia lampa
Valete!
La piccola mia lampa
Non, come sol, risplande,
Nè, come incendio, fuma;
Nè, come incendio, fuma;
Non stride e non consuma,
Ma con la cima tende
Al ciel che me la diè.
Starà su me, sepolto,
Viva; nè pioggia o vento,
Nè in lei le età potranno;
E quei che passeranno
Erranti, a lume spento,
Lo accenderan da me. Ma con la cima tende
Al ciel che me la diè.
Starà su me, sepolto,
Viva; nè pioggia o vento,
Nè in lei le età potranno;
E quei che passeranno
Erranti, a lume spento,
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Minha pequenina lâmpada,
Não resplende, como o sol,
Nem, tal como fogo, fuma;
Não estridula, não gasta,
Porém, com seu cimo, tende
Para o céu, que ma doou.
Será sobre mim, sepulto,
Viva; e nem chuva ou vento,
Nem o tempo terá, nela,
Efeito; e os que passarem,
Errantes, lume apagado,
Em mim o acenderão.

