segunda-feira, novembro 19, 2007

Giulietta

Por Antonina Casannova

Não hei de sacrificar o meu amor
em virtude da glória de outros ídolos;
nem hei de me esquecer do que foi
ou profetizar a dor que será,
assim como tampouco ousarei me lançar
nas mãos dos sentimentos frívolos.

Prometo jamais prometer que te amo
sob a luz do mais lindo luar;
a lua, meu amor, é uma flor inconstante
que faz primaveras no céu,
mas que abandona as noites frias
ao léu do breu que habita no ar.

Enquanto houver canto em minha voz
e meus pés alcançarem o chão,
seguirei do teu lado direito,
para levar ao meu lado esquerdo
a sombra do vulto teu
mais perto do meu coração.

E então, no momento do silêncio eterno,
quando a vida quiser me cobrir de inverno,
hás de ouvir meu coração fraquejando
no ritmo exato do pisares teus passos;

e dentro dos intervalos do tempo
entre os interstícios do corpo,
hás de sempre sentir o meu corpo mudo,
lanceado nos vãos dos teus braços.

quinta-feira, novembro 15, 2007

Soneto XIII

Por Jerônimo Boaventura

Reclamo o lirismo do estimado poeta português Gaspar de Almeida, em ordem a renovar a seiva deste grêmio desamparado.


Ah! olhos meus, que ledas madrugadas
Em claro acumulastes, recordando
A imagem adorada, o sonho brando
De antigas estações, horas passadas.

Ao fim, sempre, brilhavam as alvoradas,
Da noite o tênue véu descortinando,
Essa hora as vãs imagens, debandando,
Esvoaçavam, leves, desatadas.

Então vos deparava, tristes olhos,
A prima luz do dia uma estranheza,
Vosso desenganar de amores tais.

Transmudavam-se os lírios em abrolhos.
Era a ventura finda, e na certeza:
O imaginar e o ver, quão desiguais!

Luís Gaspar de Almeida