quinta-feira, dezembro 28, 2006

Idiota

Por Jerônimo Boaventura

“E, de fato, o que importa, no momento, é ser idiota.”
Nelson Rodrigues, O óbvio ululante.


Bem dias correram té que experimentasse de novo vibrar a lança do estilo, que prometo menos afiada ao paciente leitor. Paciente nem tanto, pois que nos ouvidos bebo sussurros descontentes, palavras atrevidas que revelam o não poderem mais se haver com o que reflexiono e digo.

Hão de perdoar-me, logo que atinarem na causa. Minha ignorância incomoda-me e parece aumentar dia sobre dia; tempo para redimi-la não bastara a soma dos séculos, e, no que tenho de efêmero e fungível, vou servindo do que me resta. A vida foge e a matéria, e sinto querer o espírito alargar-se. Encanta-me o saber e busco substância nos exemplos e nas palavras de edificação.

No entanto, de lugar a lugar deparo um meu adversário nesses ideais sublimes, ameaça aos espíritos mais alargados, mole impetuosa e corrupta que vem sovando o que lhe obvia o caminho e comprimindo os que com ela não compõem: é a mole eversora da idiotia.

Abundam os idiotas.

Vai nisso a queixa do derrotado, de quem não lhes conseguiu perseguir a estrada, aspirou a poeira vil dos seus sapatos até descobrir nova vereda, mais ínvia, porém menos traçada, mais estreita, porém menos escura. É alta façanha resistir à avalancha dessa massa idiota, que onera os espíritos sensíveis e distintos. Aos que lhe sucumbem ao peso, são variados e imprevisíveis os efeitos.

A título de ilustração, aduzo o caso notável do Jorge Capanema.

Conheci o Jorge, rapaz cultivado e talentoso, que, certa feita, porque adquirisse novas vantagens em breve espaço de dias, determinou assemelhar-se ao idiota. Ansiava por mostrar-se, emergir de sua vida obscura e votada ao estudo para um mundo mais palpitante e povoado de inebriamento, uma nova Síbaris. Estudou do idiota a fala, os gestos, a expressão, o trajo. Como julgasse possível a empresa, encetou para logo o seu plano arrivista.

Rapidíssima e vertiginosa foi a ascensão do Jorge. Apenas vestiu o idiota, multiplicaram-se os amigos. Raros no passado, então se achou rodeado deles, de modo que era difícil descortinar o Jorge na multidão de em torno. Entrou a acompanhar pessoas que não acompanhava, a ir a lugares aonde não ia. Estranhos se lhe tornaram íntimos; íntimos, estranhos. Como fosse inteligente, soube portar tão idiotamente, que vencia os idiotas naturais na sua idiotia, interpretando o idiota por excelência.

Empolgava com ânimo rapace todas as honrarias que se ofertavam ao seu coração ambicioso: presidências de DAs, lideranças estudantis, comissões de festas e formaturas, eventos, inaugurações. Quando faltava alguém para pôr a peito uma “churrascada”, um pagode, lá ia o Jorge oferecer-se como salvador, mas, ao revés de crucificado, era festejado. Todos amavam o jeito amigo e o espírito de confraternização do Jorge, que acudia sorridente aos rogos gerais. Era querido da turba.

Dessa forma, granjeou fama e simpatia. Ao cabo de um ano, encabeçava o grupo no qual ingressara. Gozou das mais variadas delícias que a vida social nos oferta. Cortejava mulheres – pois, seres caprichosos que são, negam entregar-se sem a iniciativa viril. Eram elas, porém, que o pretendiam ardorosamente, ao passo que ele lhes obedecia ao jogo, com não menos capricho.

Corridos dois anos, o Jorge então se compunha de várias histórias e muitas vidas. Nos lugares onde encetou relações, não contava homem que lhe nunca apertara as mãos ou mulher que jamais o desejara. Tocou pela rama os corações, não os penetrou, porque é estranho ao idiota praticar e inspirar ações e sentimentos sublimes.

Infelizmente não dou mais notícia do Jorge Capanema. O tempo e a idiotia nos foram apartando a passos contados; sei que ainda demora nesta capital provinciana, onde o lobriguei há perto de dois meses cavaqueando e rindo idiotamente, circulado por mais de uma dúzia de seres que se prezam de talentosos. Está sempre acompanhado o idiota, pois teme as horas solitárias que convidam à reflexão.

Não o tenho ao Jorge por menos inteligente do que dantes. Ao inverso, é homem de visão e prático, com algum pendor para o que faz. Quisera eu praticar como ele a idiotia ou antes ter permanecido criança pela vida fora – que assim a Medicina Legal ilustra o idiota: uma criança de até dois anos – de sorte que me satisfizesse integralmente na carne, no metal e na admiração vulgar, em prejuízo do conhecimento e da sabedoria.

Ao caminho que percorri, contudo, se lhe dissolveram os rastos, por modo que não há voltar. Se o tentasse, perder-me-ia. E a perdição seria antes moral que geográfica; cada curva dobrada representaria um dobrar na alma, e à força de tantas dobraduras me faria curvo, internamente curvo.

Que aos idiotas se franqueiem as estradas largas e já congestionadas da idiotia; por mim, vou louvando-me nas palavras do Evangelista: “Entrai pela porta estreita, porque larga porta e espaçosa via é a que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela. Quão estreita a porta e apertada a via que conduz para a vida, e são poucos os que vão ter com ela”.

Valete!

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Soneto

Por Joaquim Fonseca

A minha poesia cheira mal,
perdeu-se num lixão ficou fedida,
nadou no meio de uma lama escura,
visitou casas cheias de sujeira.

O meu poema nunca teve vida,
sem namorada ou coisas desse jeito
esse coitado é cheio de frescura
tem medo de amar, não é normal.

Então pensei se esses dois bestas junto
vai ver faço um casal de doentinho
prendo os pombinhos dentro de um soneto.

Que se dane pra lá se der defunto,
caso um cismar de dar no outro um cheirinho.
Vou trancar bem com chave este terceto!

sexta-feira, dezembro 01, 2006

El Laberinto del Yo

Por Joaquim Fonseca

Es como locura, o sueño. Un día pisé regiones desconocidas de mi cerebro. Mientras me desencontraba, me surgían imágenes delante, como espejos de abismos y soledades.


Crucé un puente, a la otra orilla pude divisar la puerta del laberinto.

“Es un cuchillo la alegría”, lo dejaron escrito a la otra margen. No puedo decir con qué pretexto me infundieron esa frase-navaja. Allí pesaba sobre la tierra el Laberinto del Yo.

Cuando me hallé frente a la gran puerta de hierro, me llegó un mitad hombre, mitad bestia y dijo: “Hay dos formas de entrar. O tienes la llave, si es que te la dieron tus papás, o te comprás estos cigarrillos que son mágicos y abren la puerta. Pero hay que pensarlo bien, porque si se abre con el humo, te metes ahí adentro tranquilo, pero es que si de repente se cierra, porque puede cerrarse sola, chao, no hay tu tía. Aunque haya otra puerta siempre abierta, tienes que recorrer todas las galerías y corredores, subir escaleras, forzar puertas hasta encontrarla. En cambio si llevas la llave, puedes a cualquier momento abrir las infinitas puertas cerradas.”

A mí no me habían dado la puta llave ni nada, me compré los cigarrillos, mandé todo al carajo y pisé el primer zaguán. Pude comprender lo perdido que iba.