Idiota
Por Jerônimo Boaventura
“E, de fato, o que importa, no momento, é ser idiota.”
Nelson Rodrigues, O óbvio ululante.
Bem dias correram té que experimentasse de novo vibrar a lança do estilo, que prometo menos afiada ao paciente leitor. Paciente nem tanto, pois que nos ouvidos bebo sussurros descontentes, palavras atrevidas que revelam o não poderem mais se haver com o que reflexiono e digo.
Hão de perdoar-me, logo que atinarem na causa. Minha ignorância incomoda-me e parece aumentar dia sobre dia; tempo para redimi-la não bastara a soma dos séculos, e, no que tenho de efêmero e fungível, vou servindo do que me resta. A vida foge e a matéria, e sinto querer o espírito alargar-se. Encanta-me o saber e busco substância nos exemplos e nas palavras de edificação.
No entanto, de lugar a lugar deparo um meu adversário nesses ideais sublimes, ameaça aos espíritos mais alargados, mole impetuosa e corrupta que vem sovando o que lhe obvia o caminho e comprimindo os que com ela não compõem: é a mole eversora da idiotia.
Abundam os idiotas.
Vai nisso a queixa do derrotado, de quem não lhes conseguiu perseguir a estrada, aspirou a poeira vil dos seus sapatos até descobrir nova vereda, mais ínvia, porém menos traçada, mais estreita, porém menos escura. É alta façanha resistir à avalancha dessa massa idiota, que onera os espíritos sensíveis e distintos. Aos que lhe sucumbem ao peso, são variados e imprevisíveis os efeitos.
A título de ilustração, aduzo o caso notável do Jorge Capanema.
Conheci o Jorge, rapaz cultivado e talentoso, que, certa feita, porque adquirisse novas vantagens em breve espaço de dias, determinou assemelhar-se ao idiota. Ansiava por mostrar-se, emergir de sua vida obscura e votada ao estudo para um mundo mais palpitante e povoado de inebriamento, uma nova Síbaris. Estudou do idiota a fala, os gestos, a expressão, o trajo. Como julgasse possível a empresa, encetou para logo o seu plano arrivista.
Rapidíssima e vertiginosa foi a ascensão do Jorge. Apenas vestiu o idiota, multiplicaram-se os amigos. Raros no passado, então se achou rodeado deles, de modo que era difícil descortinar o Jorge na multidão de em torno. Entrou a acompanhar pessoas que não acompanhava, a ir a lugares aonde não ia. Estranhos se lhe tornaram íntimos; íntimos, estranhos. Como fosse inteligente, soube portar tão idiotamente, que vencia os idiotas naturais na sua idiotia, interpretando o idiota por excelência.
Empolgava com ânimo rapace todas as honrarias que se ofertavam ao seu coração ambicioso: presidências de DAs, lideranças estudantis, comissões de festas e formaturas, eventos, inaugurações. Quando faltava alguém para pôr a peito uma “churrascada”, um pagode, lá ia o Jorge oferecer-se como salvador, mas, ao revés de crucificado, era festejado. Todos amavam o jeito amigo e o espírito de confraternização do Jorge, que acudia sorridente aos rogos gerais. Era querido da turba.
Dessa forma, granjeou fama e simpatia. Ao cabo de um ano, encabeçava o grupo no qual ingressara. Gozou das mais variadas delícias que a vida social nos oferta. Cortejava mulheres – pois, seres caprichosos que são, negam entregar-se sem a iniciativa viril. Eram elas, porém, que o pretendiam ardorosamente, ao passo que ele lhes obedecia ao jogo, com não menos capricho.
Corridos dois anos, o Jorge então se compunha de várias histórias e muitas vidas. Nos lugares onde encetou relações, não contava homem que lhe nunca apertara as mãos ou mulher que jamais o desejara. Tocou pela rama os corações, não os penetrou, porque é estranho ao idiota praticar e inspirar ações e sentimentos sublimes.
Infelizmente não dou mais notícia do Jorge Capanema. O tempo e a idiotia nos foram apartando a passos contados; sei que ainda demora nesta capital provinciana, onde o lobriguei há perto de dois meses cavaqueando e rindo idiotamente, circulado por mais de uma dúzia de seres que se prezam de talentosos. Está sempre acompanhado o idiota, pois teme as horas solitárias que convidam à reflexão.
Não o tenho ao Jorge por menos inteligente do que dantes. Ao inverso, é homem de visão e prático, com algum pendor para o que faz. Quisera eu praticar como ele a idiotia ou antes ter permanecido criança pela vida fora – que assim a Medicina Legal ilustra o idiota: uma criança de até dois anos – de sorte que me satisfizesse integralmente na carne, no metal e na admiração vulgar, em prejuízo do conhecimento e da sabedoria.
Ao caminho que percorri, contudo, se lhe dissolveram os rastos, por modo que não há voltar. Se o tentasse, perder-me-ia. E a perdição seria antes moral que geográfica; cada curva dobrada representaria um dobrar na alma, e à força de tantas dobraduras me faria curvo, internamente curvo.
Que aos idiotas se franqueiem as estradas largas e já congestionadas da idiotia; por mim, vou louvando-me nas palavras do Evangelista: “Entrai pela porta estreita, porque larga porta e espaçosa via é a que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela. Quão estreita a porta e apertada a via que conduz para a vida, e são poucos os que vão ter com ela”.
Valete!

