Suicídio da menina pequena
por Antonina Casannova
A menina pequena
com a faquinha no peito
pedindo outra morte.
Não sabe da vida
a menina pequena,
mas conhece de cor,
talvez de salteado,
sua dor bailarina
que não sabe dormir.
A dor bailarina
da menina pequena
não faz piruetas:
é sempre e ainda
a mesma dorzinha
que dói pontiaguda
e mal redimida,
é feito um novelo
que se repolhou
de dentro para dentro.
De dentro para fora
não sabe a menina
da vida, das coisas.
Não sabe dos anos,
os muitos de atrás,
quando inda não tinha
nem rosto, nem gestos;
quando era ausência,
quando era em silêncio,
quando era nem feto,
nem pouco, nem nada.
Não sabe da vida,
mas quer outra morte
se a morte primeira
já está consumada.
Está consumada,
está para sempre,
de setembro a setembro
a dor da menina.
É sem dar descanso,
não sabe dormir,
é a dor mais inteira
que vem de um vazio.
Pequena menina
apertando a faquinha,
o coraçãozinho encolhido
palpitando forte.
Seria o Deus tão injusto
com a alma daqueles
que morrem escuros
mas inocentemente?
Que vai purgar a menina,
qual pena há-de-eterna
castiga as crianças
que morrem por si?
Não sabe a menina
das coisas da vida
e menos suspeita
das coisas da outra.
Mas Deus é bonzinho,
manda acudir um anjo
que esbarra na faca
que tomba no chão.
Anjo nem carecia
que tinha ponta redonda
e dentes mal acabados
a faca, a FACA.
Então volta a menina
a perseguir borboletas
e a faca a cortar pão,
passar manteiga, partir torta.
Nunca mais a pequena
vai tentar outra vez;
seguirá pela vida
sem se lembrar por quem
nem quando foi morta.

