Por Jerônimo Boaventura
Os antigos chamavam virtuosos os que se alçavam por sobre o comum dos homens em pensamentos e obras, egrégios varões que, na lida pública com vistas para a eternidade, figuravam-se como cimos da pátria; os cristãos chamavam santos certos homens que, alçados em piedade e obras, se misturavam humildemente ao comum dos homens a modo de refrescante ribeirão que vivifica o duro cotidiano.
Tal virtude, tal santidade se deve anelar sempre, pois é da natureza do homem buscar o bem, pelo que entretanto, quando o busca a todo o pano, não raramente pratica o mal.
Quão miserável, porém, é o nosso estado, que tudo perdemos entre os dedos o que colhemos às mãos com longo esforço! Assim enfrentamos o assédio das paixões e podamos os apetites com muita diligência, e, mal que nos cuidamos santos e virtuosos, padecemos a infalível queda, que nos lembra a nossa origem.
Inclinados ao abandono e ao mau tempo, convidamos as faltas e doenças que entrem a nossa alma, devassem-na de lado a lado, aninhem-se dentro nela até corromper-lhe o parco depósito de virtude e santidade que ali a penas se acumulara; qual livro sem dono, esquecido dentro de uma velha caixa, parece saboroso às gulosas traças que vêm lambendo roer-lhe o couro e as folhas, corrompendo-lhe o texto até torná-lo ilegível, tal a alma que consente a visita do orgulho e da vã imaginação e, desprovida de um dono em cujo amor e cuidados possa esperar, perde a pouco e pouco sua integridade.
Ora, leitor amigo, se desprezas o trato de um dono amável e firme, prepara, pois, o teu papel.
Vale.

