quinta-feira, maio 01, 2008

Ofício

Por Antonina Casannova

Um poeta para ser poeta
tem que ser menor que as coisas,
tem que caber no centro de tudo
e entender que dentro dos olhos
existe o abismo mais fundo do mundo.

Um poeta para ser poeta
tem que cantar os feitos heróicos,
transformar em rosa efeitos atômicos,
seguir sua estrada abatendo moinhos...
e tem que saber muitas línguas,
sobretudo a dos passarinhos.

Um poeta tem que transpirar
mais na alma que na epiderme,
tem que ser certeiro feito Guilherme
e estar entre o alvo e a seta
para desviar sua flecha
e reinventar sua meta.

Um poeta tem que compor
um poema com jeito de valsa,
tem que sair pela vida
à procura de sua Beatriz,
tem que ir-se embora pra Pasárgada
sabedor de que nem lá se é feliz.

(Se queres chegar a poeta
encontra tua namorada
e dedica um poema a ela:
"Tu és minha musa, ó donzela..."
se seu nome for Daniela;
"Soubesse o arquiteto da chama
do amor..." se for Celiana;
"Porque o horizonte não some
je t'aime..." se for Anne seu nome;
"Poeta não sou, meu drama
é amar-te..." se for Juliana.)

Um poeta tem que tomar um trem
e parar em terra estranha
(para poetas não há terra estranha),
tem que escrever um poema
que apascente a fome dos lobos
com a carne das palavras puras,
e tem que aceitar o sol como irmão
qual no Cântico das Criaturas.

Um poeta para ser poeta
precisa de amar um amor desmedido,
tem que ser muitos dentro de um só
e mais dentro ainda ser sozinho.

Só assim pode ir guiando as pedras
que se perderam no meio do caminho.