Terra de trás, literalmente.
Por Joaquim Fonseca
Por recorrer caminhos alheios entramos não raro a terras desconhecidas e assombrosas. Apresento-lhes uma tradução, BACKGROUND, de Júlio Cortázar. Texto original em Salvo el Crepúsculo.
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Tudo provém da noite, background inescapável, mãe de minhas criaturas diurnas. Minha única psicanálise possível deveria cumprir-se na escuridão, entre as duas e as quatro da madrugada – hora impensável para os especialistas. Mas eu sim, eu posso fazê-lo ao meio dia e exorcizar os íncubos a pleno sol, da única maneira eficaz: invocando-os.
Curioso que para invocar os íncubos é preciso fazê-los calar quando vêm ao teatro da insônia. Outras leis regem a imensa casa de ar negro, as festas de larvas e empusas, os cúmplices de uma memória encurralada pela luz e os reclames do dia e que apenas derrama seu veludo manchado de mofo no cenário da dorme-vela. Passivo, espectador atado a sua poltrona de lençóis e almofadas, incapaz de qualquer vontade de renúncia ou assimilação, de palavra registrável. Mas depois será o dia, câmara clara. Depois poderemos revelar e registrar. Não mais o mesmo, mas a fotografia da escritura é como a fotografia das coisas: sempre algo diferente para assim, às vezes, ser o mesmo.
Presença, ocorrência de minha mandala nas altas noites nuas, as noites descaradas, lá onde outras vezes contei carneirinhos ou percorri escadas de cifras, de múltiplos e décadas e palíndromos e acrósticos, hóspede involuntário das noites que se negam a estarem sós. Mãos de inevitável rumo que me fizeram entrar em redemoinhos de tempo, de caras, no baile de mortos vivos confundindo-se numa mesma febre fria enquanto lacaios invisíveis abrem passo a novas máscaras e guardam as portas contra o sono, contra o único inimigo eficaz da noite triunfante.
Lutei, claro, ninguém se entrega assim sem apelar para as armas do esquecimento, para estúpidos carneiros saltado uma cerca, para números de quatro cifras que diminuirão de sete em sete até chegar a zero ou recomeçarão se a conta não for exata. Talvez venci alguma vez ou a noite foi magnânima; quase sempre tive que abrir os olhos à cinza de um amanhecer, procurar um casaco e ver chegar a fadiga anterior a todo esforço, o sabor do painel de um dia interminável. Não sei viver sem cansaço, sem dormir; não sei por que a noite odeia meu sono e o combate, morcegos afrontados sobre meu corpo desvestido. Inventei centenas de recursos mnemotécnicos, as farmácias me conhecem excessivamente e também o Chivas Regal. Talvez não merecesse minha mandala, talvez por isso demorou a chegar. Não a procurei jamais; como procurar outro vazio no vazio? Não foi parte de meus lúgubres jogos de defesa, veio como vêm os pássaros a uma janela, uma noite esteve aqui e houve uma pausa irônica, um dizer que entre duas figuras de exumação ou nostalgia se interpunha uma amável construção geométrica, outra lembrança por uma vez inofensiva, diagrama regressando de velhas leituras místicas de grimórios medievais, de um turismo aficionado, de algum tapete iniciático visto nos mercados de Jaipur ou de Benares. Quantas vezes rostos limados pelo tempo ou cômodos de uma breve infância se deram por um instante, reconstruídos em cenário fosforescente dos olhos fechados, para dar passagem a qualquer construção geométrica nascida dessas luzes incertas que giram seu verde ou sua púrpura antes de abrir caminho a uma nova invenção desse nada sempre mais tangível que a vaga penumbra na janela. Não a recusei como recusaria tantas caras, tantos corpos que me devolveriam à lembrança ou à culpa, às vezes à felicidade ainda mais penosa em sua impossibilidade. A deixei estar, na caixa roxa de meus olhos fechados a vi muito próxima, imóvel em sua forma definida, não a reconheci como reconhecia tantas formas da lembrança, tantas lembranças de formas, não fiz nada por afastá-la com um brusco bater-de-asas das pálpebras, um giro na cama buscando uma região mais fresca do travesseiro. A deixei estar ainda que pudesse destruí-la, a encarei como não encarava outras criaturas da noite, dei-lhe talvez uma essência primeira, uma textura diferente ou acreditei dar-lhe o que já tinha; algo indizível a estendeu diante de mim como uma fábrica diferente, uma filha de minha inimiga e ao mesmo tempo minha, uma cortina lodosa entre as festas sepulcrais e sua freqüente testemunha.
Desde esta noite minha mandala atende a meu chamado tão logo acendem as primeiras luzes da farândola, e ainda que o sonho não venha com ela e sua presença dure um tempo que não saberia medir, atrás fica a noite nua e raivosa mordendo essa tela invulnerável, lutando por rasgá-la e por deste lado os primeiros visitantes, as previsíveis e por isso mais horríveis seqüências da felicidade morta, de uma árvore em flor ao entardecer de um verão argentino, do sorriso de uma mulher que vive uma vida já para sempre vedada a minha ternura, de um morto que jogou comigo seus últimos jogos de cartas sobre um colcha de hospital.
Minha mandala é isso, uma simplíssima mandala que nasce acaso de uma combinação imaginária de elementos, tem a forma ovalada do recinto de meus olhos fechados, o cobre sem deixar espaços, no primeiro plano vertical onde repousa minha visão. Nem sequer seu fundo se distingue da cor entre roxo e púrpura que foi sempre a cor da insônia, o teatro dos desenterros e as autópsias da memória; o diria de um veludo fosco no qual se inscrevessem dois triângulos entrecruzados como em pentáculo de feitiçaria. No rombo que define a oposição de suas linhas alaranjadas há um olho que me olha sem me ver, nunca tive que lhe voltar o olhar ainda que sua pupila estivesse cravada em mim; um olho como o Udyat dos egípcios, a íris intensamente verde e a pupila branca como gesso, sem pestanas nem pálpebras, perfeitamente plano, traçado sobre a tela viva por um pincel que não pretende a imitação de um olho. Posso distrair-me, olhar em direção à janela ou procurar o copo de água na penumbra; posso afastar minha mandala com uma simples flexão da vontade, ou convocar uma imagem escolhida por mim contra a vontade da noite; me bastará o primeiro sinal de contra-ataque, o deslizamento do escolhido ao imposto para que minha mandala volte a estender-se entre o assédio da noite e meu recinto invulnerável. Estaremos assim, seremos isso, e o sono chegará desde sua porta invisível, apagando-nos esse instante que ninguém pode nunca conhecer.
É quando começará a verdadeira submersão, a que acato porque a entendo deveras minha e não turvo produto da fadiga diurna do euo. Minha mandala separa o servilismo da revelação, a dorme-vela revanchista das mensagens enraizadas. A noite onírica é minha verdadeira noite; como na insônia, nada posso fazer para impedir esse fluxo que invade e submete, mas os sonhos, sonhos são, sem que a consciência possa escolhê-los, enquanto a parafernália da insônia joga turvamente com as culpabilidades da vigília, as propõe em uma interminável cerimônia masoquista. Minha nandala separa as torpezas da insônia do puro território que tende suas pontes de contato; eu sim, a chamo de mandala é por isso, porque toda entrega a uma mandala abre caminho a uma totalidade sem mediações, nos entrega a nós mesmos, nos devolve ao que não alcançamos ser nem antes nem depois. Sei que os sonhos podem trazer-me tanto o horror como a delicia, levar-me ao descobrimento ou extraviar-me a um labirinto sem término; mas também sei que sou o que sonho e sonho o que sou. Acordado, apenas me conheço em partes, e a insônia brinca turvamente com esse conhecimento envolto em ilusões; minha mandala me ajuda a cair em mim mesmo, a pendurar a consciência lá onde pendurei minha roupa ao me deitar.
Se falo disso é porque ao acordar arrasto comigo pedaços de sonhos pedindo escritura, e porque desde sempre soube que essa escritura –pomas, contos, romances– era a única fixação que me foi dada para não dissolver-me nesse que bebe seu café matinal e sai à rua para começar um novo dia. Nada tenho contra minha vida diurna, mas não é por ela que escrevo. Desde muito cedo passei da escritura à vida, do sonho à vigília. A vida abastece os sonhos mas os sonhos devolvem a moeda profunda da vida. Em todo caso assim é como sempre busquei ou aceitei fazer frente a meu trabalho diurno de escritura, de registro que é também reconstrução. Assim foi nascendo tudo isso.

