terça-feira, fevereiro 26, 2008

Poética

Por Antonina Casannova

Em uma de minhas recentes palestras com João Olavo Filho num bar da avenida Augusto de Lima ele me disse estar com vontade de escrever um poema único, um poema que se encerrasse em si mesmo e dentro de si trouxesse tudo o que existe.

"Mas o que queres dizer com um poema único?", questionei.
"Este poema deve expressar uma força universal, tem que ter qualquer coisa de totalidade, de desejo, de busca e de realização. Seria um poema sobre um outro poema, ou talvez nem isso; talvez fosse o desejo de escrever um poema assim."
"Assim como?"
"Assim como... não sei, assim como um poema que tivesse tudo e resolvesse tudo e quisesse tudo e desafiasse tudo e fosse tudo. Quero escrever a minha poética, que ainda não estou bem certo de qual seja e o que seja"

Anteontem, na porta de minha casa, encontrei um envelope com os dizeres "Para minha cara Antonina, um presente do amigo João Olavo".

A beleza dos versos me obriga a ceder mais uma vez meu espaço há muito vazio para meu grande amigo. Lanço-vos, caros leitores, na brisa das palavras deste grande poeta.

Poética

Eu queria escrever um poema
como quem prepara nova vida;
não morresse de morte matada
nem morresse de morte morrida
que a primeira é página rasgada
e a segunda é palavra esquecida.

Eu queria escrever um poema
como quem sobre si amanhece;
um poema que o tempo levasse
consigo enquanto mundo houvesse;
um poema que nunca acabasse
e em cujo verso tudo estivesse.

Eu queria escrever um poema
como quem canta uma melodia;
um poema de voz empostada
que fizesse despertar o dia
e acordasse, enfim, a amada
que dorme em minha fantasia.

Eu queria escrever um poema
como quem faz da tristeza, amor;
um poeminha singelo, pequeno,
do tamanho daquela flor
qu'inda mais se encolheu ao sereno
mas nunca perdeu o esplendor.

Eu queria escrever um poema
como quem revela um segredo;
um poema maior que a lembrança,
a saudade, a lágrima, o medo,
porque o tempo é uma eterna criança
e nós somos o seu brinquedo.

Eu queria inventar a palavra
que solucionasse qualquer problema;
a palavra que fosse a mais certa,
sobre a qual viver valesse a pena...
Mas não sou inventor, sou poeta,
só posso inventar um poema.

Eu queria escrever um poema
e esquecê-lo num trem de partida,
pois o dia que vai se apagando
tem cor de esperança perdida,
mas noutro horizonte, chegando,
é força, é glória e é vida.