Por Jerônimo Boaventura
"Populus hic labiis me honorat, cor autem eorum longe est a me."
Mt. 15,8.
Lembra-me hoje a figura do Cristo na cruz, mortificado, escarnecido dos homens, olhos revirados em direitura do Deus Pai, o sangue a jorrar das chagas abertas pelos soldados, a coroa de espinhos na cabeça machucada. Se no dia natalino não cogito no nascimento de Jesus, mas na sua morte, é que pensar no Cristo morto não é tê-lo por morto, senão que ressuscitado e vivo.
Fosse eu tão cristão quanto aquele que reúne os seus em casa, ao pé da árvore de natal cujas raízes são pacotes de várias cores, formas e tamanhos; que aparelha a lauta mesa com toda sorte de frutas, cereais e doces, posto no meio o magnífico peru; que profere o Padre-Nosso alfim, cuidando desobrigar-se em ponto e a tempo; fosse eu tão cristão como esse, traria a alma plácida e justificada de quem alcançou o quinhão merecido no reino dos céus.
Nesta festividade, porém, seja porque sou mau cristão, seja porque, honrando o dia natalício de qualquer pessoa, é bem recordar-lhe a vida e porventura os exemplos, determinei-me a compulsar o Evangelho de Mateus. E lá busco e vos entrego estes versículos em que me deleito grandemente:
"Assim, pelos frutos os conhecereis. Nem todo o que me disser: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus; mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus entrará no reino dos céus. Muitos, naquele dia, me dirão: Senhor, Senhor, acaso não profetizamos em teu nome, não expelimos demônios em teu nome e em teu nome não produzimos muitos milagres? Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que operais a iniqüidade." Mt. 7,20-23.
Mal horrível que grassa de presente e sempre é esse desacordo entre o verbo e a praxe, que vemos nos falsos profetas. Cousa odienda, mui comumente havida entre as gentes, que cavam imenso abismo entre suas palavras e ações. Aquele diz "não" e está por "sim", este diz "quero" e está por "não quero", estoutro condena o furto e furta. No último estádio desse mal, tal como nos versículos do evangelista, parecemos ver a praxe homologar o verbo, acordando o falar com o proceder, entretanto a um tempo que se parecem harmonizar em poucas ocasiões, em muitas outras desafina com eles a tenção íntima do falso profeta, quando inquirida por Deus, porquanto é desprovido de boa vontade o seu coração, que houvera mister de fazer a vontade do Senhor.
Pois, quando não há mais que doutrina e lei, e falece a religião íntima entre o coração e o pensamento em serviço do bem, nunca jamais perdurará o bem nem ainda a doutrina, por ilegitimidade e iniqüidade daqueles que possuem vontade diversa da vontade divina que anima o mesmo bem e a mesma doutrina. Desta feita, profetiza o antigo Isaías: "Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim" e, sob a aparência da verdade e da justiça, prevalecerá mais e mais a injustiça e a mentira.
Valete!

