sábado, janeiro 06, 2007

Por Alfredo Pestana

Eu o que não acompanho é essa hiper-excitação em que os seres vulgares transmudam a existência inútil. Assisto inerte ao desatino de meus contemporâneos, velocípedes indomáveis, perdidos ante a necessidade sempre renovada do gozo ininterrupto, nessa espécie de existencialismo frívolo que não pode levar nunca além da frustração.
A mera observação de tal sandice torna-me custosa a respiração e turva a vista, e resta-me o refúgio na desocupação revigorante de um cigarro tragado com vagar. Se não escapo à certeza de que tudo é vão, quando mais não seja, furto-me à fadiga e à derrota dos que partiram apressados e não conseguiram, no caminho, mais que atropelar os próprios passos.
Lambuza-te, pois, leitor fanfarrão! Devora o que se te apresente à mão! Mas não queiras tu impor-me a cruz da alegria estéril. A mim, alfredo que sou, mais vale ver passar os dias, imerso em dúvidas intransponíveis, em velhas páginas de desencanto e em nuvens, não mais que nuvens, de contentamento.