quarta-feira, setembro 06, 2006

Por Jerônimo Boaventura

“Se for conveniente que fales, fala cousas que edifiquem.”
Thomas de Kempis, Imitação de Cristo.

Convocado que fui para engrossar o número deste notável grêmio literário, hesitei imenso, não para me fazer rogado, mas porque julgo tênue a minha composição física e, sobretudo, a intelectual, incapazes assim de engrossar qualquer coisa. Junta-se a isso a morosidade e a dureza da minha pena, donde o escrever é tarefa para mim das mais penosas. Não obstante, algo desconfortado, eis-me, antes por amor da amizade que por merecimento do ofício.
Na distinção de Valéry em escritores estrategistas e escritores táticos, numero-me entre os primeiros. Confio menos no talento do que no longo e paciente trabalho de meditação e estudo. Ao contrário dos táticos, inspirados que são pela musa e pelos sopros geniais que cuidam sentir, a obra é para os estrategistas o afloramento das virtudes e técnicas artísticas cultivadas no correr dos anos. A mão daqueles é de ordinário célere e impetuosa, a nossa pausada e reflexiva. À parte isso, duvido do escritor absolutamente tático ou absolutamente estrategista, pois não há escrever elegante sem talento, nem criar inventivo sem estudo.
Estrategista ou tático que fosse, a verdade é que, na guerra do ars scribendi, saio sempre vencido. A letra de contínuo me subjuga, e, quando cuido vibrar a lança do estilo, arrisco ferir a mim mesmo. Por isso, estou que prudente é brandi-la o menos possível, poupando-me a mim e ao leitor, que não merece decerto se expor às dolorosas estocadas por mercê de somenos valia. E como ferem tais! Um texto mal escrito é o moscardo de Io, e o leitor a vaca!
Que vontade ou força, pois, me arrasta a escrevinhar nestes Cadernos algumas frases de pouco engenho e algumas idéias de pouca beleza? por que me ameaço a mim e a ti, leitor, com o girar da lança desajeitada? Tal é a resposta que me acode: almejo por instrução.
Em meio à histeria moderna dos concretos que se erguem e dominam de parte a parte, prédios, centros de compras, pontes, torres, viadutos, toda sorte de matéria bruta que nos estorva a vista, busco a instrução do indivíduo, o impalpável, os sentimentos e as idéias que edificam.
Nada mais que isso, ó bons, ficará de mim e da minha lança, ainda que fosse de bronze.
E onde encontrá-los senão no escrever, uma vez que esse ato implica leitura e meditação, vontade de moldar o pensamento e, portanto, necessidade de empreendê-lo?
Destarte, lanço mão da palavra escrita e, procurando-me, nela me encontro, a poder de muitos desencontros.
Valete!